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ota: a presente entrevista – aqui reproduzida integralmente – foi elaborada pela Revista Esquinas, um órgão laboratorial do Curso jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo. A finalidade foi recolher informações para a matéria “Debaixo dos Mantos” de sua edição de nº 49. Quem estiver interessado em ler a matéria, ela foi disponibilizada on-line no site da Faculdade. Deixo aqui registrados meus agradecimentos a Cinthia Zagatto e a equipe da Revista Esquinas.

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REVISTA ESQUINAS: Qual é a relação dos Iluminados da Baviera com o Iluminismo? Eram mesmo os iluministas mais radicais ou foi apenas coincidência que tenham surgido em épocas tão próximas?

Adam WeishauptCARLOS RAPOSO: Diretamente, não parece haver relação entre eles. Incidentalmente, contudo, é perfeitamente possível que alguns “Iluminados” possam ter sido iluministas. De todo modo, o que costuma ser historicamente afirmado é que o fundador dos Iluminados, Adam Weishaupt (1748-1830), fora fortemente influenciado pelos ideais políticos de seu tutor, este sim, um iluminista. Por este última perspectiva e guardadas as necessárias ressalvas, não seria de todo errado dizer que os Iluminados seriam um dos filhos do Iluminismo. Assim, tanto o fato de ambos os movimentos terem surgido aproximadamente na mesma época quanto compartilharem certos princípios certamente é bem mais do que mera coincidência.

Esq.: Houve alguma expressão, mesmo que mínima, da Ordem Illuminati no Brasil?

CR.: Nunca li nenhum material confiável que indique qualquer tipo de atividade Illuminati no Brasil.

Esq.: Há alguma relação entre os Illuminati e as sociedades Skull and Bones – de Yale – ou DeMolay?

CR.: Antes de tudo é preciso ressaltar um ponto: o tema “Illuminati” é um prato cheio para os adeptos das “teorias conspiratórias”, assim, é preciso ter bastante cuidado ao abordar as supostas relações entre os Iluminados e as demais Ordens. Dito isso, os DeMolay não possuem qualquer vínculo direto com os Illuminati. Já em relação aos bonesmen, há autores, como Steven Sora, por exemplo, que vagamente sugerem que o fundador da “Skull and Bones” haveria pertencido a uma espécie de ramificação alemã dos Illuminati, mas não a essa Ordem propriamente dita.

Esq.: Os 12 graus dos Illuminati podem ser comparados à maçonaria, onde a cada nível há a apresentação de mais segredos e conhecimentos aos seus integrantes? Como funcionavam e qual a importância ou a diferença entre os graus? O que se consegue no grau 12º que não se tem no 1º, por exemplo?

CR.: Sim, podem ser comparados. Ressalte-se que Weishaupt fora iniciado na Maçonaria, muito embora seu propósito em ser admitido à Ordem já estivesse bem definido antes mesmo de sua entrada. Ao que tudo indica, ele não queria ser Maçom, mas reformar esta Instituição, de modo a fazer com que Maçonaria servisse aos fins dele, coisa que evidentemente jamais aconteceu. Quanto aos graus Illuminati, a Ordem possuía três Seções de graus. Cada Seção era subdividida em estágios, perfazendo uma estrutura com um total de 12 graus. Não há como aqui explicar detalhadamente o que se aprendia em cada um dos graus dos Illuminati, pois isso demandaria uma imensa e às vezes maçante explanação. Contudo, falando a vôo de pássaro, na 1ª Seção de graus (chamada de Seção de Noviço) a Ordem, suas finalidades e a premente necessidade de mudar a sociedade eram apresentadas ao Neófito; na 2ª (Seção Minerval), vários conhecimentos maçônicos lhes eram ministrados, adequando-os ao fito reformista; finalmente, na 3ª (Seção do Minerval Iluminado), o então Iniciado era conclamado a agir no sentido de realizar a tão pretendida reforma social proposta por Weishaupt. Adicionalmente, vale mencionar que cada um dos Adeptos adotava para si uma espécie de pseudônimo, às vezes denominado mote mágico ou nome místico. Nesse contexto, é emblemático que Weishaupt fosse conhecido no meio como Frater Spartacus.

Esq.: Como era o processo de Provação pelo qual se tinha que passar para alcançar um novo grau?

CR.: Para ser admitido, não havia exatamente um critério a ser seguido. O que normalmente ocorria era um simples convite, similar ao que acontece até hoje na Maçonaria. Desse modo, se um Iluminado conhecesse alguém que ele julgasse merecedor de receber um convite, este era feito. Destaque-se que a rede de Iniciados era bem reduzida, principalmente nos primeiros anos de existência da Ordem. Isso fazia com que procedimentos de admissão e de avanço nos graus fossem bem simples, ocorrendo muito mais de acordo com a necessidade dos Illuminati de terem peças estrategicamente localizadas pela Europa. Quanto a passar de uma Seção de graus para outra Seção de graus, era imposto um interstício probatório de pelo menos um ano de permanência em cada Seção. Nesse interstício, a critério dos superiores, o Iniciado passava por algumas provações, que testavam seu “merecimento”, por assim dizer. Fidelidade aos princípios da Ordem, presteza em realizar as tarefas dadas, convicção quanto à necessidade de reformar a sociedade, capacidade em trazer informações úteis para a Ordem, tudo pesava ora a favor ora contra o avanço do Adepto na estrutura Illuminati.

Esq.: Se os Illuminati têm como principal inimigo a Igreja Católica, quais são as bases religiosas que os moviam? Como se relacionam os Illuminati aos comentários sobre culto a Lúcifer e a consagração do anticristo na Nova Ordem Mundial, por exemplo? São especulações ou foi algo que se inseriu na sociedade através dos anos?

CR.: Em primeiro lugar, a premissa não está de todo correta. A Igreja não era o principal inimigo dos Illuminati, mas um dos alvos de sua pretendida ação reformista. Em suma, além de social, as reformas pretendidas pelos Illuminati teriam um alcance político, religioso e econômico. No aspecto político, os Illuminati pretendiam purgar da Europa as monarquias. Já nas questões religiosas, aí sim a Igreja Católica aparecia como adversária a ser batida. Quanto às demandas econômicas, os Illuminati consideram inimigos os grandes proprietários e a concentração de riqueza, pois, na concepção deles, não seria possível uma sociedade justa com tanta desigualdade econômica. Depois, quanto aos comentários relacionados a “anticristos”, “culto a lúcifer” e demais perversões, estas simplesmente não se aplicavam. Todas estas peculiaridades de fato são especulação e construções que tomaram lugar em cena a partir da segunda metade do século XX, bem depois dos Illuminati serem extintos, ainda no século XVIII.

Esq.: Os símbolos Illuminati da nota de 1 dólar, dos Estados Unidos, misturam-se aos símbolos maçônicos. É seguro dizer que alguns deles são símbolos exclusivamente Illuminati, sendo que muitos líderes governamentais fazem parte da maçonaria e foram responsáveis pela aplicação desses símbolos na moeda americana? É maçom ou Illuminati?

CR.: Os símbolos são maçônicos ou, melhor dizendo, são símbolos primeiramente usados pela Maçonaria. Mais tarde, evidentemente, um ou outro símbolo usado pela Maçonaria pode também ter sido usado pelos Illuminati (não podemos perder de vista que Weishaupt fora maçom), mas isso não caracteriza qualquer influência Illuminati na formação dos EUA. Historicamente, a rede de Iniciados estabelecida por Weishaupt e seus Illuminati apenas abrangeu parte do Velho Continente, não chegando às Américas.

Esq.: A coruja, o cumprimento com o indicador e o mindinho levantados e a estrela invertida, por exemplo, são símbolos satânicos ou foram distorcidos com o passar do tempo? Se são satânicos, como se explica a utilização pelos Illuminati? Ou tinha outro significado para eles?

CR.: Todos estes símbolos são bem mais antigos do que qualquer Ordem que conheçamos. No meu entender, eles somente estão relacionados aos Illuminati graças mesmo à distorção promovida pela falta de informação, pela informação tendenciosa e por um incontrolável excesso de misticismo.

Esq.: Há muita especulação sobre os Illuminati ainda tentarem estabelecer uma Nova Ordem Mundial. Se os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade são honrosos, por que alguns teóricos da conspiração classificam que uma possível tomada de poder dos Illuminati seria vil e submeteria a população mundial ao domínio de poucos?

CR.: Considero a questão particularmente interessante, pelos desdobramentos que ela suscita. Inicialmente, vale muito dizer que sim, existe excessiva especulação sobre a suposta tomada de poder pelos Illuminati. No meu entender, tal hipótese é simplesmente inverificável e não procede de modo algum. Isso, por si só, faria a pergunta fica completamente sem sentido. No entanto, mesmo não acreditando neste tipo de domínio, se fosse admitir a possibilidade dos Iluminados conseguirem estabelecer a tal Ordem Mundial, diria que a preocupação dos teóricos da conspiração se justificaria plenamente. Aqui é que a questão ganha uma proporção bastante interessante. A preocupação se justificaria, pois boa parte das Ordens ditas “secretas” esconde, sob o manto de um discurso repleto de jargões e bordões que apelam sempre por ideais libertários, um regime político e hierárquico excessivamente rígido, senão autoritário, até totalitário. Muito possivelmente, esse seria o caso dos Illuminati, caso ainda existissem. Saindo um pouco da pergunta, acrescento que o ideal representado pelo mote “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” de fato é nobre. Não a toa ser ele francamente usado pela Maçonaria como um de seus mais importantes princípios. De passagem, vale mencionar que a Maçonaria, ao contrário da maioria das Ordens ditas “secretas” e salvo alguns dogmas estruturais, é uma instituição que funciona de acordo com os mesmos princípios que norteiam qualquer democracia.

Esq.: Quando os Illuminati receberam essa fama de uma das sociedades secretas mais perigosas e por quê? É só fama, ou os Illuminati se tornaram mesmo perigosos? O que os levou a isso?

CR.: Não sei se é possível determinar precisamente quando os Illuminati receberam essa fama. Mesmo assim, resumidamente é válido citar que já no séc. XIX autores maçônicos bem conhecidos e respeitados, como Albert Mackey (1807–1881) e Kenneth Mackenzie (1833–1886), costumavam citar os Illuminati, mas de um modo meramente informativo, da mesma forma como citavam outros grupos. Para estes autores, os Iluminados da Baviera constituíam apenas uma ordem interessante, pois sua estrutura servira de base para outras Ordens surgidas naquela época. Entretanto, posteriormente, uma historiadora chamada Nesta H. Webster (1876–1960) daria aos Illuminati uma dimensão um tanto que espalhafatosa e alarmista, relacionando-os num contexto de uma espécie de complô universal que visava nada menos do que o estabelecimento mundial do comunismo. Segundo Webster (no clássico Secret Societies and Subversive Movements, de 1924) os Illuminati constituíam uma das peças de um jogo maior de forças malignas que há muito se reuniam, visando não somente investir avassaladoramente contra o Cristianismo, mas também – nas palavras dela – contra toda a ordem social e moral vigente. Possivelmente, foi esta autora a primeira a citar os Illuminati e Weishaupt desse modo, relacionando-os a um contexto inteiramente perverso e mau. Forçando um pouco, é até pertinente dizer que Webster fora uma das primeiras representantes dos teóricos da conspiração. Depois dela, outros tantos vieram a alimentar essa idéia alarmista a respeito da Ordem dos Iluminados, associando-a as grandes teorias conspiratórias, a satanismos e a tutti quanti. Assim, essa fama toda que hoje é imposta aos Illuminati nada mais é que uma simples construção, sistematicamente alimentada por uma enxurrada literária extremamente tendenciosa e bem pouco confiável.

Esq.: Até onde os fatos ilustrados pelo jogo INWO, de Steve Jackson, 1995, são ligados aos Illuminati? O senhor acredita que eles estiveram por trás dos atentados contra as torres gêmeas e o pentágono, em 2001, assim como atuaram na revolução francesa?

CR.: Não o conheço muito bem, mas o suficiente para dizer que o jogo de Jackson é apenas um jogo baseado nas teorias conspiratórias e nada mais. Quanto às Torres do WTC e ao Pentágono, não há nada ali que relacione o atentado com qualquer suposto tipo de atividade dos Iluminados. Tudo é mera especulação “conspiracionista”, por assim dizer. Já em relação à Revolução Francesa, embora seja mote comum afirmar que os Illuminati estiveram presentes neste movimento (eu mesmo já fiz esta afirmação, no passado), não custa lembrar que a Ordem foi suprimida antes da Revolução ocorrer. Dito de modo diferente, se de fato houve a participação de membros remanescentes dos Illuminati na Revolução Francesa – e de fato eles eram antimonarquistas –, devemos creditar esta participação a iniciativas pessoais de cada um deles e não da Ordem como um todo.

Esq.: Em seu artigo para a revista Sexto Sentido, há a citação de movimentos exotéricos do presente, que podem ser confundidos com os Illuminati originais. Seriam esses os movimentos que chamam a atenção dos teóricos da conspiração para os feitos Illuminati dos atentados de 2001, ou os Iluminados da Baviera originais ainda podem existir no subterrâneo? Qual é a real ou a mais provável expressão do movimento, hoje em dia? Eles ainda existem e estão por aí, ou se “transformaram” em outro grupo que vem visando à Nova Ordem Mundial em seu lugar, como uma continuação?

CR.: Para quem não conhece o artigo e tiver interesse em ler, ele está inteiramente reproduzido em um de meus blogs (em Os Iluminados da Baviera). Respondendo a questão, sim, alguns destes grupos esotéricos ou exotéricos podem ser confundidos com os Illuminati originais, mas nenhum é o original e nem qualquer um deles seria capaz de realizar algo parecido com o que ocorreu em 2001. Quanto a uma possível subsistência subterrânea, evidentemente a hipótese pode ser considerada, embora seja praticamente improvável. Na verdade, os movimentos que an passant citei são tão latos que mais confundem do que esclarecem. Em tempo, note que sempre que aparece o tema “Illuminati”, quem fala a respeito deixa sempre algo no ar, como se um mistério maior houvesse por ali, algo que precisasse ser propositalmente ocultado. Por esta razão, quando que me perguntam sobre isso tento ser o mais claro possível: até onde sei, não há continuidade direta dos Illuminati. Melhor dizendo, não há grupo que possa sustentar claramente qualquer tipo de vínculo histórico direto com o grupo setecentista fundado por Weishaupt. O que existe são agremiações iniciáticas que meramente usam livremente a denominação “Illuminati”, bem como alguns de seus ideais. Sei que para muita gente, a não mais existência dos Illuminati originais pode parecer frustrante. Todavia, tenha certeza que bem mais frustrante é ver alguém iludido, pensando que faz parte de uma coesa Estrutura Illuminati Mundial, coisa que simplesmente não existe.

Esq.: Se existe uma continuação dos Illuminati, no que se diferencia o atual grupo do original?

CR.: Como dito anteriormente, não existe uma continuação direta deles, mas sim algumas Ordens que usam parte dos ideais dos Iluminados em seu escopo. Algumas até mesmo trazem a palavra “Illuminati” em seus nomes. Entretanto, nenhuma delas é – de fato – uma continuação do grupo fundado na Baviera.

Esq.: Como aconteceu a extinção política dos Illuminati? Baseado nas questões acima é possível afirmar que eles estão de fato extintos?

CR.: Sim, o grupo fundado por Weishaupt foi suprimido. Tudo indica que autoridades locais, cumprindo ordem do Eleitor da Baviera, identificaram e apreenderam um farto material produzido por Weishaupt. Entre outros, no material havia planos para a derrocada das monarquias européias, para que a Maçonaria fosse dominada e para o fim da Igreja Católica, além de diretrizes gerais para o que Weishaupt considerava ser o “Estado Ideal”. Em suma, em decorrência disso tanto Weishaupt quanto sua família foram perseguidos. Conseguiram fugir e Weishaupt se exilou, passando a viver na cidade de Gotha, sob a proteção do Duque local. Lá, permaneceu quase em anonimato, escrevendo a respeito de seus ideais, até sua morte, em 1830. Quanto aos demais Illuminati, o exílio do líder e consequente enfraquecimento de todo o movimento foi suficiente para desmantelar a rede criada por Weishaupt, levando-a a extinção.

este início de Primavera, como nada me ocorre para falar, aproveito para responder a pergunta provocada pelo meu post “Ignorantes, afortunadamente ignorantes…“, sobre qual era a historinha dos ciclopes que eu escrevi. Aqui ela segue, na forma como foi escrita, inteiramente baseada no filme Krull.

Para quem quiser algo técnico sobre os Ciclopes, a imagem usada mais abaixo foi retirada de um site sobre mitologia, que poderá ser visto aqui.

A Lenda dos Ciclopes
por Carlos Raposo

Há muito, contava-se que os Ciclopes eram seres alegres e felizes. Naquela época, eles possuíam os dois olhos, como todos os outros seres da região em que viviam.

Movidos por sua natureza investigativa, diz-se que os Ciclopes saíram em sua busca do conhecimento e da sabedoria maior. Assim, durante a jornada repleta de acontecimentos e aventuras, após muito procurarem, eles se depararam com um Grande Mestre, o Senhor dos Mundos Obscuros.

Os Ciclopes, então, contaram ao Mestre os seus anseios e perguntaram se este poderia, de alguma forma, ajudá-los. O Mestre, agindo de acordo com sua sinistra natureza, declarou possuir tal saber, o conhecimento dos conhecimentos, o maior dos segredos entre todos os segredos. “E este segredo será de vós. Tudo porém tem um preço!”, disse com majestade o temível Grande Senhor dos Mundos Obscuros.

Entusiasmados diante da real possibilidade de conseguirem o tão almejado segredo, os Ciclopes, se declararam dispostos a pagar o preço necessário, fosse qual fosse seu valor, para finalmente terem a posse do cobiçado conhecimento. Nenhum esforço seria medido por eles para pagar o preço devido.

O Senhor dos Mundos Obscuros, então, propôs trocar o grande segredo por um olho dos Ciclopes.

A barganha foi feita e o logro obtido.

Os Ciclopes, assim, com um só olho, e de posse do Supremo Conhecimento, logo retornariam da longa jornada, à região de origem deles.

os CiclopesOs outros habitantes daquela região logo notaram o diferente aspecto dos gigantes. Porém, o que mais se fazia perceber naquelas colossais criaturas não eram os novos e estranhos traços das suas faces, mas sim a terrível mudança do estado de espírito deles. Onde antes estavam a alegria e a felicidade, agora habitam a tristeza e a sisudez.

Os demais moradores da região dos Ciclopes, acostumados com a habitual cortesia daqueles soberbos seres, não entendiam os motivos da drástica mudança de atitude. “O que terá acontecido a eles?” perguntavam atônitos entre si. Até que um dos gigantes, disse como fora a jornada em busca do conhecimento. Contou a respeito do anseio de sua raça pelo saber e pelo Sumo Conhecimento. Falou como eles decidiram partir na demanda de suas altas aspirações e também como ocorreu o fatídico encontro com o Grande Mestre. Narrou como se sucedeu a barganha que lhes fora proposto pelo terrível Mestre dos Mundos Abissais e, finalmente, sobre o tão desejado Saber, o Conhecimento que afinal lhes fora entregue: “o maior dos segredos, entre todos os segredos”, disse de forma tristonha e melancólica o imenso Ciclope.

Foi quando alguém, dentre aqueles que escutavam o gigante, perguntou: “mas porque agora, ó colossal criatura, andais triste como o crepúsculo, porque agora os dias e as noites não têm mais importância para ti e por qual motivo a própria vida já não exerce encanto sobre todos da tua nobre raça, e justamente agora que vós possuís tão precioso saber?”

Ao que respondeu o Ciclope que o Saber que lhes fora conferido, era muito especial mas também deveras cruel; o maior dos segredos, entre todos os segredos; tão terrível quanto o seu Guardião, o Mestre dos Mundos Obscuros. Este era o Único Saber, e este consistia apenas do conhecimento preciso e completo de como e quando ocorreria a própria morte. A nobre raça dos Ciclopes agora estava condenada a nascer já perfeitamente ciente de como e quando se daria a própria morte. Desta feita, nada mais importava para aquelas grandes criaturas da região. Nada mais tinha importância. Por isso a tristeza e a melancolia agora seriam suas únicas e eternas companheiras.

O fardo era demais. E se fosse permitido a eles apenas mais um desejo, todos, sem exceção, escolheriam algo muito simples: ignorância…

Certa feita disse um famoso propagandista, que o marketing nada mais é do que a arte de fazer um cadáver sorrir. Em se tratando de comerciais, haveria afirmação mais verdadeira? Creio que não. Em meio a tantas imagens técnicas veiculadas em nossa mídia, notem como boa parte dos produtos são mascarados de um modo tão magistral, que mesmo a utilidade deles não fica muito clara. Claro: se soubéssemos exatamente para que servem tais produtos, veríamos o quão desnecessários eles são. Mais não interessa para que eles servem, pois somente servem para serem comprados.

A questão da imagem técnica, aquela que é trabalhada ao extremo, é chave na propaganda. Nesse contexto, a fotografia surge como peça mestra. Mas creio que todos sabem disso. Em contrapartida, talvez nem todos saibam – na verdade creio mesmo é que poucos sabem disso – mas existem estudos teóricos que promovem uma avaliação dos motivos filosóficos ocultados pela arte de fotografar. Algo quase como que a contramão da arte de produzir meras imagens a serem usadas em propagandas. Nesse sentido, destaco o muito mais que notável fotógrafo Vilem Flusser (1920-1991). Nascido em Praga, ele viveu mais de três décadas no Brasil, fixando depois residência na Alemanha. Flusser, escreveu o maravilhoso “Ensaio sobre a Fotografia – Para uma Filosofia da Técnica” onde, mais que um simples ensaio, a partir da fotografia como objeto de reflexão, ele chega a avaliar o funcionamento de nossas sociedades, chamadas por ele de sociedades pós-históricas.

No texto em questão, ao falar sobre as imagens técnicas, Flusser expõe tanto sua opinião sobre o que deveriam ser estas imagens, quanto apresenta a cruel realidade do rumo por elas tomado. Apesar de escrito na década de 80 do século passado, o texto parece até ter sido traçado hoje:

Vilem Flusser (1920-1991)As imagens técnicas (e, em primeiro lugar, a fotografia) deviam constituir o denominador comum entre o conhecimento científico, a experiência artística e a vivência política de todos os dias. Todas as imagens técnicas deviam ser, simultaneamente, conhecimento (verdade), vivência (beleza) e modelo de comportamento (bondade). Na realidade, porém, a revolução das imagens técnicas tomou um rumo diferente: não tornam visível o conhecimento científico, mas falseiam-no; não reintroduzem as imagens tradicionais, mas substituem-nas; não tornam visível a magia subliminar, mas substituem-na por outra. Neste sentido, as imagens técnicas passam a ser falsas, feias e ruins; além de não terem sido capazes de reunificar a cultura, mas apenas de fundir a sociedade numa massa amorfa. Ref.: FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre a Fotografia – Para uma Filosofia da Técnica. Relógio D’Água Editores (Lisboa, 1998), pp 37-38.

E assim funciona a propaganda: quanto mais massificada e amorfa, melhor serve à sociedade que precisa consumir o que nela é apresentado.

por Carlos Raposo

“All in all you’re just
another brick in the wall.”
(Pink Floyd, The Wall)

primeira imagem com a qual ao entrar para a Ordem o Aprendiz Maçom toma contato, sob um ponto de vista, sintetiza boa parte (senão todos) dos símbolos pertinentes a seu presente estágio iniciático. Sob outro aspecto, ela também traz a indicação do trabalho que começou a ser realizado por aquele que iniciou o seu longo aprendizado. Descrevendo-a rapidamente, a imagem apresenta um jovem olhando um bloco disforme de pedra. Este jovem, provavelmente um pedreiro em início de carreira ou um escultor iniciante, traz consigo os instrumentos de seu ofício: um Malho e um Cinzel.

Em uma primeira vista, de imediato, nota-se que, pelo menos, os já citados quatro elementos básicos da imagem, saltam aos olhos. Repetindo-os, são eles o próprio Pedreiro, o Malho, o Cinzel e a Pedra Bruta a ser trabalhada. Para poder iniciar esta rápida exposição tanto sobre esses elementos, quanto sobre o conjunto em si que a imagem, como um todo, representa, é necessário retroceder um pouco no tempo para lembrar da época em que a assim chamada Maçonaria especulativa era considerada operativa.

Naquele tempo, aos poucos, com a evolução da arte de se construir, o material utilizado nas edificações passaria de madeira para a pedra e, depois, da pedra para a pedra trabalhada. As construções, assim, iam se tornando mais sólidas e belas. O trabalho na pedra bruta visava, principalmente, preparar um conjunto de peças para que essas se moldassem e se encaixassem em um todo maior de pedras, e que todas estivessem em conformidade com o projeto dos “construtores”. No campo operativo, boa parte do trabalho de lapidação executado pelos novos Pedreiros, entre tantos outros materiais, era feito com o uso de três elementos básicos: a Pedra em si, o Martelo (ou Malho) e o Prego (ou Cinzel).

Talvez como efeito do avanço industrial, quando a máquina começava a substituir a mão de obra humana, por volta da segunda década do século XVIII, a Maçonaria passaria a ser considerada de ordem especulativa. Desse modo, boa parte dos componentes materiais até então utilizados no ofício e na arte da construção passariam a compor símbolos, cuja natureza, ainda associada às edificações, agora também estaria relacionada a aspectos internos ao ser humano, sejam esses aspectos de ordem moral, sejam de ordem espiritual. Dessa forma, o que antes era visto como a preparação para se produzir peças perfeitas, agora ganhava os contornos de símbolos que visavam a edificação do verdadeiro homem. Para tal, assim como acontecia com os blocos de pedra bruta, o próprio homem necessitaria ser trabalhado, ou lapidado, para que sua perfeição enfim se mostrasse.

O AprendizNa já citada imagem do Grau de Aprendiz, vemos o jovem pedreiro trabalhando a pedra bruta. Como exposto, para a realização deste trabalho ele emprega o Cinzel e o Malho. O Malho encontra-se em sua mão direita, enquanto que o Cinzel está na esquerda. Comparando a pedra com o homem, é mostrado que ela, em seu estado bruto, encontra-se disforme, distante de um possível estado de perfeição, que, mais tarde será representado pela Pedra Cúbica. Analogamente, este trabalho de lapidação poderá ocorrer com o próprio ser humano.

Ora se identificando com a Pedra, ora com o Pedreiro, o Aprendiz terá todos os elementos necessários para trabalhar a si próprio. Estes elementos estão representados pelos já mencionados Malho e Cinzel.

Alguns autores relacionam, superficialmente, o Malho ao elemento ativo da obra de desbaste da Pedra Bruta, enquanto que o Cinzel seria o elemento passivo. O primeiro estaria associado à força e ao intelecto, enquanto que o segundo diria respeito a arte de esculpir propriamente dita. Em uma análise um pouco mais criteriosa, o Malho sustentado pela mão direita passa a ser entendido como um símbolo da ação pura da vontade do Aprendiz, atuando com perseverança e continuidade sobre a Pedra, enquanto o Cinzel é visto como a capacidade de orientação e observação, a capacidade de saber discernir o que se deve ou não ser retirado do bloco em trabalho. Sob o ponto de vista iniciático, Malho e Cinzel podem ser percebidos, respectivamente, um como a Tradição que prepara e o outro como a Revelação que cria. Um é inútil sem o outro, e eles atuam em conformidade com o Princípio Hermético da Polaridade, que diz que “tudo é duplo”.

Se uma forma de assimilação do símbolo do Grau de Aprendiz o mostra trabalhando a Pedra Bruta, um outro entendimento, de ordem ainda superior, nos fala que o Aprendiz, sendo a própria Pedra a ser desbastada, “sofrerá” a ação do Grande Escultor, que fará uso dos elementos necessário à realização da Obra final.

Todavia, qual seria a relação direta do Bem e do Mal com a Lição Pedra Bruta?

Estes dois conceitos, Bem e Mal, ocuparam, e certamente continuarão ocupando, a mente de todos e quaisquer estudantes das Ciências Antigas. Genericamente tomados como conceitos absolutos, onde, primeiramente, poderíamos simplesmente optar por um (normalmente o Bem) e esquecer o outro, tais aspectos da criação são de tamanha relatividade, que defini-los satisfatoriamente pode parecer tarefa difícil, senão francamente impossível. Assim, nos limitaremos a dissertar de modo livre e sucinto sobre os mesmos, sempre tendo em mente o símbolo da Pedra Bruta, bem como nossa fé e confiança no Grande Artesão.

Em princípio, quanto mais livre de conceitos (sobremodo conceitos religiosos) preestabelecidos estiver a mente de alguém, mais apto ela estará para perceber os notáveis equívocos, alguns seculares, com os quais estamos obrigados a conviver. Por exemplo, tornou-se uso comum associar Deus tão somente ao Bem, relegando todos os aspectos supostamente vis da criação, as “coisas” ruins, ao seu eterno opositor. Desta forma, a perene luta Bem versus Mal, tendo seu palco há muito armado, segue seu rumo em direção ao eterno.

Somente como ilustração para este equívoco, citamos um trecho, extraído dos códigos de uma das crenças mais populares de nosso país. Este trecho afirma, de modo claro, taxativo, lapidar e final ser “…Deus, soberanamente justo e bom…”. A suposição de que algo seja “justo e bom”, mesmo muito antes de poder ser considerada primária, deve ser vista como realmente é, ou seja, ilógica, até mesmo contraditória.

O Segundo Princípio elaborado por aquele Três vezes Grande, o Princípio de Correspondência, nos diz que “o que está em cima é como o que está em baixo…”. Seguindo a lógica hermética, sabemos que, em tese, um Juiz, quando emite uma sentença ou julga uma causa humana, intenta nada mais ser senão Justo. Ele não deseja ser nem Bom e nem Mau. Mas apenas Justo. As demais partes envolvidas são as que, segundo a conveniência de cada uma, entendem ter sido o seu veredicto, a sentença, Boa ou Má. Da mesma forma, seguindo o Princípio Hermético das Correspondências, podemos supor o mesmo a respeito do Grande Juiz, o Criador. Se Ele é Justo, como o crêem todos, é apenas Justo, e nunca Bom ou Mau, apenas Justo. Nós, suas Criaturas, é que, dentro de nossa limitada compreensão, entendemos serem as Suas ações mera conseqüência de um possível Bem ou Mal. E exatamente nisto, em Sua Justiça, está a Sua Perfeição. Não é a toa que os Pedreiros da Arte Real se utilizam do mote “Justo e Perfeito” e nunca “Justo e Bom”.

Seguindo o raciocínio sobre o Bem e o Mal, no trabalho de lapidação da Pedra Bruta, duas vontades parecem agir de modo concomitante: a primeira vontade seguirá os desígnios do Criador, que é soberana. A vontade secundária partiria da própria Pedra, ou do indivíduo a ser trabalhado, no caso, o Aprendiz. Em ambas possibilidades, intenta-se obter o produto final na forma de uma pedra Justa e Perfeita. Ela é Justa, pois está adequada à Sua Obra e é Perfeita, pois também está em conformidade com a Perfeição de Seu Plano Maior.

O livre arbítrio que, em princípio, parece dirigir a vontade do Aprendiz, nada mas é do que a faculdade que lhe dá a chance de estar em harmonia com a vontade maior que o criou. Nesse caso, as duas vontades, sendo harmônicas, passam a ser uma única Vontade. Então, poderíamos entender o Bem como sendo a capacidade do Aprendiz de pôr a própria vontade em sintonia com a vontade Superior, enquanto o Mal simplesmente representaria a opção contrária a esta.

Um outro aspecto do símbolo, presente no processo de tornar desbastada a pedra bruta, também muito teria a acrescentar. Sob um certo ponto de vista, a Pedra Bruta é entendida como um estado original de liberdade, enquanto que a pedra trabalhada é vista como sendo nada mais que o produto da submissão de uma individualidade pela força. Mas por hora, devido a densidade deste particular modo de entendimento da lição da Pedra Bruta, não gostaria de me aprofundar nesse tema.

Para encerrar, diria apenas que cabe a cada um de nós descobrir a sutil diferença entre a perfeição da pedra trabalhada e a submissão que o desbastar da pedra por vezes representa. Não reconhecer tal diferença pode nos levar a ser, simplesmente, um mero produto de nosso meio, mais uma peça moldada a revelia de nossa própria vontade, de nosso próprio querer. Enfim, talvez a diferença possa estar no fato de que, enquanto uma traz em si mesma o objetivo de toda Iniciação, ou seja, a fiel expressão da vontade do conjunto Criador e Criatura, constituindo uma verdadeira jóia única, a outra não passará de um mero capricho da manipulação profana, apenas mais um tijolo na parede, fadado a nada mais senão o esquecimento.

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Nota Editorial: Este Artigo, originalmente escrito em 1999. Posteriormente, em 2004, ele publicado na Revista Sexto Sentido nº 48, da Mythos Editora.

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