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nastácia, moradora do prédio em que morei aqui em Botafogo, estava desolada. Na manhã do que prometia ser um lindo Domingo, Josué havia falecido. Foram meses de tratamento e cuidados especiais. Contudo, ele não resistiu. Anastácia, quase octogenária, mal acreditava que seu fidelíssimo companheiro dos últimos 16 anos finalmente deixara este mundo de penúrias, partindo para a outra vida. “Que São Francisco de Assis possa recebê-lo em paz”, repetia, com fé e olhos marejados. Josué era seu querido cão pastor alemão. Um belo e enorme exemplar do tipo manto negro.

Qual deles?Josué morreu em casa, assistido pela dona até os últimos momentos de sua longa e feliz vida. Logo depois do óbito e quando superada a tristeza natural causada pela perda do ente querido, Anastácia imediatamente se deparou com o dilema: e o corpo de Josué? Jamais o deixaria a mercê dos lixeiros, afinal, tratava-se do querido Josué! Ainda um pouco chorosa, Anastácia se lembrou da comadre de todas as horas e telefonou para Ana.

- Ô, Tacinha, que dó! Sim, é a vida, minha filha. Estas coisas tristes acontecem com todo mundo. Mas não se preocupe. Traga hoje o corpo dele ao meu sítio que o enterraremos por aqui mesmo.

A Idea da comadre lhe pareceu muito humana e Anastácia a aceitou de bom grado. Ana morava num sito em Vargem Grande, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, distante uns 50 km de Botafogo. Decidiu ir de taxi. A corrida seria alta, ainda mais com a bandeira 2 dos Domingos, mas Josué merecia.

O prestativo Severino, ajudante do porteiro do prédio, arrumou uma caixa cúbica de papelão, bem volumosa e resistente, para acomodar o corpo de Josué. A caixa era de uma televisão antiga, daquelas bem pesadas, de 29 polegadas e com tubo de imagem. Como esquife temporário, era perfeita. Severino pôs o corpo do cachorro na caixa e providenciou um taxi grande o suficiente, onde a pudesse acomodar na mala do carro. Rapidamente, taxista, Anastácia e o corpo de Josué rumaram para Vargem Grande, em direção ao sitio da comadre Ana.

Ao longo do percurso, os soluços tristes de Anastácia chamaram a atenção do taxista, que lhe perguntou se estava bem.

- Não é nada não moço. Só estou triste por conta do falecimento de meu Josué.
- É a vida, minha senhora, é a vida. A gente tem que aprender a conviver com as dores. Meus pêsames.

E assim a viagem seguiu por quase uma hora e meia, até chegarem à entrada do sítio da comadre Ana.

- Quanto lhe devo moço? Foram R$ 88,20 pela corrida?
- A senhora não me deve nada. O que vai pagar a corrida é a televisão que está na minha mala!
- Como, televisão?
- Vai logo descendo, mulher, cai fora do meu carro!
- Mas senhor, o Josué…
- Que Josué, minha senhora, que Josué? Esse já partiu dessa para a melhor. Eu vou é ficar com a TV que tá na mala e fazer uma surpresinha pra minha patroa…
- Mas, senhor…
- Calada! Desce do carro senão te enfio a porrada!

Qual deles?Atordoada com aquela truculência, Anastácia desceu do carro. Em meio a soluços, falava “meu Josué”, enquanto o taxi ia embora bem rápido. Logo depois, o portão do sítio se abriu e de lá apareceu a comadre Ana. Rapidamente, Anastácia foi abraça-la e não se contendo, caiu em prantos e lhe contou, aflita, o que se passara com o taxista.

- Meu deus, minha querida. Mas que mundo nós estamos, heim? Virgem Maria, nem corpo de cão se salva da bandidagem. Mas, deixe assim, querida. Acalme-se. Vamos entrar, tomar um chá e conversar um pouco. Tudo ficará bem.

E assim as duas amigas seguiram abraçadas. Logo estariam rindo do episódio, que embora dramático, também fora marcadamente irônico. Por fim, ambas gargalharam, principalmente com a observação feita por Ana, a respeito da surpresa que a patroa do taxista teria quando o pilantra lhe abrisse o “presente”…
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Obs.: inteiramente baseado em fatos reais. Os nomes próprios foram alterados, inclusive o de Josué, para manter a privacidade das senhoras.

Obs.: as imagens aqui usadas foram colhidas na internet. Não sei quem são seus autores.

ntem recebi um comunicado vindo da creche de minha filha. Não havia nada demais nele, mas mesmo assim a coisa me deixou meio perplexo. O texto me informava a respeito da festinha de Páscoa que acontece anualmente em suas dependências, evento onde as crianças se socializarão, confraternizarão e trocarão docinhos. Se a criança possuir alguma restrição a chocolate, que ela leve alguma outra guloseima, dizia o comunicado. De fato, não havia nada demais escrito nele, é apenas uma festinha de Páscoa para as crianças. Todavia, não gostei.

Por que não gostei? Muito simples. Por que entupir as crianças de doces? Por que já acostumá-las, desde a mais tenra idade, a consumir açúcar refinado de modo histérico? Qualquer mentecapto sabe que o açúcar branco é um dos piores vilões, senão o pior, para nossa saúde. Nem sequer ele pode ser considerado alimento, pois é constituído de 100% caloria e sem valor nutricional. Sim, o açúcar não alimenta, mas apenas vicia e engorda. Contudo, as “tias” da creche parecem não se importa com os malefícios causados por este veneno.

Diante do comunicado, ocorreu-me pensar a respeito do que é que estamos fazendo com nossas crianças. Tudo indica que nós, adultos, se de certa forma estamos cientes de nossos maus usos e péssimos costumes, ainda não estamos completamente cientes do mal que eles nos causam. Assim, não nos importamos em transmiti-los para nossas crianças. E até mesmo pior, pois uma vez constatado nossos vícios, parece que fazemos questão de compartilhá-los com elas. Por que isso? Por querer que no futuro nossas crianças sejam pessoas humanas tão pouco saudáveis quanto nós? Não vejo qualquer traço de sabedoria nisso, somente estupidez. Precisamos pensar com mais carinho a respeito da questão.

digo não aos doces!Finalmente, sugiro o seguinte para o caso dessas festinhas de páscoa. Usem frutas, teatro, jogos, expliquem o significado da Páscoa. Enfim, façam qualquer coisa, mas abulam os doces. Mais ainda, na medida do possível, retirem o máximo que puderem também o açúcar refinado de suas vidas. Além dele não fazer falta alguma, seu corpo certamente agradecerá. Do contrário, ministraremos veneno às crianças, veneno este que no futuro poderá se transformar numa experiência bastante amarga.

No meu caso, a creche já está avisada. Minha filha não participará da Páscoa. E ponto final.

em do poeta latino Decimus Iunius Iuvenalis (c. séc. II d.C.) a expressão que quase todo mundo conhece: panem et circenses, “pão e circo (jogos)” ou “comida e diversão”. A expressão se encontra na obra Sátiras, texto crítico do poeta sobre o comportamento do romano por ele considerado decadente. Onde antes havia poderosos, dizia, hoje só se encontram escravos de prazeres. Para saciá-los, bastariam comida e diversão. Mutatis mutandis, quis o tempo transformar a expressão numa espécie de estratégia a ser politicamente usada para apascentar o povo. Assim, ao prover a população de comida e diversão, sabia-se que, desse modo, a insatisfação popular em relação aos governantes seria praticamente anulada.

Sim, eu sei. Aqui no Brasil estamos quase no Carnaval e já se faz valer, mais do que tudo, o que é festivamente cantado na antiga marchinha Máscara Negra: “quanto riso, oh, quanta alegria”, ela nos diz. Basta sairmos à rua e logo escutaremos alguém todo feliz a perguntar “o que você irá fazer no Carnaval? Viajará, sairá numa Escola de Samba? Baile? Vou enforcar 5ª e 6ª-feira, afinal, ninguém trabalha mesmo nesses dias, não é? Você vai enforcar também?”. O grande circo carnavalesco já está montado. A época é mesmo de euforia, de sorrisos, de felicidade e de samba no pé e nos quadris. Nada mais importa senão se esbaldar e aproveitar o Carnaval.

Nada mais importa? Certamente que não. Na verdade, há muito com o que se preocupar. Quer um exemplo?

Na última 6ª-feira, dia 1 de fevereiro de 2013, tivemos a eleição que repôs Renan Calheiros (PMDB-AL) no posto mais alto do Senado brasileiro. Novamente, ele ocupará a cadeira da Presidência daquela casa. A escolha do nome de Calheiros ficou a cargo de 56 outros Senadores, os quais, através de voto obscuro (i.e., secreto), elegeram-no, a revelia do que pensa maciça parte do eleitorado brasileiro sobre o alagoano. Para agravar o caso, sua eleição ocorreu também completamente à revelia do que pensa o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, que já denunciou Calheiros ao STF (Supremo Tribunal Federal) por peculato, falsidade ideológica e – pasmem – uso de documento falso. Como se não bastassem tanto à opinião do eleitorado brasileiro quanto a denuncia do PGR, a história política do Senador alagoano se encontra manchada por pelo menos uma irremovível nódoa: o caso do escândalo de corrupção denominado de renangate que o levou a renunciar a própria Presidência do Senado em meados de 2007. Nada disso pesou nos votos secretos dado ao novo Presidente.

Há diversas vozes gritando contra tamanho disparate. Apenas citando algumas bem poucas, o antropólogo Roberto da Matta se pergunta se não estaria na hora de sumir do Brasil. Zuenir Ventura, afirma que isso é o retrato fiel do Brasil andando para trás. Já o Deputado Federal Chico Alencar (PSOL-RJ), questionou no Twitter qual a estatura tem o Senado, dita Câmara Alta da República, ao dar 56 de 78 votos a Renan (seriam 81 votos, mas houve 3 abstenções). Por sua vez, o editorial da Folha de São Paulo para o dia da eleição de Calheiros é emblemático: Congresso rebaixado.

Em tosca contrapartida, raríssimos foram os que arriscaram apoio incondicional ao Senador das Alagoas. Dentre estes, um ganhou brevíssimo destaque nas redes sociais. Trata-se de ninguém menos do que Robson Calheiros, alguém que passaria totalmente despercebido das rodas e redes sociais – virtuais ou não – se não estivesse a carregar o mesmo sobrenome de Renan. Robinho, como é chamado, é irmão de Renan e é de Robinho a mal traçada “poesia” revanchista que, em meio a absurdos, pretendeu apoiar seu irmão dizendo sem se envergonhar:

Para tirar do meu peito esse catarro
Nessa imprensa fétida escarro
Jornalistas, hipócritas, urubus
Se espremer essa corja só sai pus
O senador deu o troco alvissareiro
Tá de volta mostrando que é guerreiro
Competente, leal, tem brilho e luz

Como conciliar os escândalos e as denúncias que pariam sobre Renan Calheiros com a cadeira da Presidência do Senado Federal é algo difícil de saber. Todavia, seu desacanhado irmão sabe do mesmo modo com soube rimar “urubus” e “pus” com “luz”. Valha-me…

escarrento...Talvez seja até apropriado falar em escarro. Afinal, ao novamente ocupar a Presidência do Senado, Renan Calheiros escarrou junto com seu irmão. Contudo, o Senador escarrento não cuspiu apenas na imprensa a qual, se nesse caso parece fétida, foi porque investigou e remexeu a récua que o encobre. Sim, ele não esputou apenas na imprensa, mas também em cada um dos brasileiros, até então seguros de que havia no Senado Federal alguma representação popular digna. Ele escarrou na nossa esperança de ver essa Casa mudada, cuspindo na perspectiva de dias melhores para nossos filhos e nosso país. É a mesmice que perdura.

Resta-nos a simples questão. O que fazer? Duas opções nos restam: agir ou nos calar.

Quanto a agir, a população já começou a responder. Logo depois da reeleição do Senador, uma petição on-line foi lançada, pleiteando o impeachment do Presidente do Senado, Renan Calheiros. Em uma semana, a petição já conta com mais de um 1.000.000 (um milhão!) de assinaturas. Sim, mais um milhão de brasileiros usando livremente seu direto de dizer “fora Renan” já assinaram a petição. Ainda são necessárias cerca de 400.000 novas adesões (o link segue, mais abaixo) para levar a petição para o Congresso e exigir que os Senadores escutem a voz do povo que os elegeu.

Quanto a nos calar, é claro, podemos esquecer toda a história e simplesmente curtir o Carnaval. Pois é, estamos em Carnaval. “Quanto riso, oh, quanta alegria”, dita aquela marchinha. Comida e diversão não faltarão. Nesse caso, será que novamente se fará impor a sina da expressão cunhada pelo poeta latino Decimus? Será que a insatisfação popular esmorecerá depois da esbórnia carnavalesca? Pode até ser. Caso isso aconteça, a letra de Máscara Negra por certo ganhará um significado todo especial, sobremodo aquela parte que diz “mais de mil palhaços no salão”.

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Link de referência:
Petição on-line: Impeachment do Presidente do Senado: Renan Calheiros

Outras referências:

Texto de Roberto da Matta
Texto de Zuenir Ventura
Twitter do Deputado Chico Alencar (PSOL-RJ):
Caso Renangate
Editorial da Folha de S. Paulo

Obs.: não sei quem é o autor(a) da imagem da cuspidela (colhida na internet), que aparece no texto. Se alguém souber, por gentileza me avise! Obrigado.

Ah! sim, ia me esquecendo!
“Poesia” do Robinho

. Comprando shampoo

conteceu comigo, numa ensolarada manhã de domingo. Daqueles domingos, que por serem plenos em ociosidade, nos convidam a tudo, incitam a reflexão e quedam por tomadas de decisões importantes a nossas vidas. Nestas manhãs, por alguns instantes, até o impossível nos parece viável. Motivado e repleto de mim, decidi ir comprar meu shampoo.

- Vou descer aqui na farmácia e comprar o meu shampoo. Disse à minha esposa.

- Sério? Sozinho? Ok. Replicou-me Juliana, com um indisfarçável ar de incredulidade feminina temperada com cinismo.

Creio que todos os homens o sabem, diante do femíneo sarcasmo não nos resta muito. Assim, como qualquer inteligente exemplar da ala masculina da população, dei-lhe de ombros, bufei um tantinho, lamentei a falta de confiança que às vezes as mulheres têm nos machos e, por fim, entendi completamente o significado disfarçado daquela provocação: um desafio. Revigorado, retribui-lhe com o mesmo sorriso e sai confiante em demanda do tal shampoo.

Qual deles?Rapidamente, cheguei à farmácia. Cumprimentei o balconista – há bastante um conhecido meu, graças a tantas outras idas naquele estabelecimento – e passei para a ridícula tarefa de comprar o meu shampoo. “Vejamos”, pensei rápido, “é um azul escuro”. Olhei a prateleira minuciosamente e nada de encontrá-lo. “Raios de capitalismo”, novo pensamento, “para que tantos produtos, tantas opções? Isso confundirá qualquer um”.

Qual deles?

Tenho certeza que compreenderão perfeitamente o que pensei. Prateleiras de shampoo parecem mais uma algazarra colorida onde a variedade de produtos é tanta que nossas mentes, normalmente ágeis, começam a claudicar. O pior de tudo é quando se percebe que em meio àquela bagunça de cores não há o tal procurado “azul escuro”.

Minha conclusão sobre o porquê da ausência do meu shampoo azul escuro nas prateleiras da loja foi óbvia: a farmácia não é tão boa assim quanto eu achava. Aproveitei para fazer uma pequena pilhéria com meu conhecido:

- Ei amigo, essa farmácia já foi melhor. Nem mesmo o meu shampoo ela tem! Disse-lhe, zombando um pouco e já me preparando para sair dali.

- Senhor, essa aí é a prateleira de sabonetes líquidos. A de shampoo fica lá no fundo da loja.

- Hã! Ah, é claro. Foi mal. Sabe como essas coisas são difíceis para nós, homens. Bem que eu havia falado para minha mulher que esse negócio de comprar shampoo não é comigo.

Enfim, falar o que?

Meio sem jeito fui à prateleira indicada, aos fundos da loja, e rapidamente encontrei o meu shampoo azul escuro. Passando pelo balconista, nada falei. Apenas sorri um sorriso amarelo sem graça e lhe mostrei o produto finalmente escolhido. A nota boa da coisa é que notei no balconista um franco ar de aprovação masculina, quase orgulho. De alguma forma, minha inépcia depunha a meu favor. Pensei até mesmo tê-lo visto sutilmente balançar a cabeça de modo positivo enquanto falava baixinho para o outro atendente, “esse é o cara!”. Parece-me que a incapacidade masculina para certas tarefas é imediatamente reconhecida pelos demais homens como um atestado de o quão macho é o sujeito. Tudo bem.

Paguei o produto, agradeci o atendimento e voltei à casa.

Ao chegar, achei melhor contar a história a Juliana. Tinha certeza que o caso a divertiria, mas também nutria a esperança de obter dela alguma palavra amável, de conforto, do tipo “tem nada não, querido, essas coisas acontecem”. Contudo, nada de palavra de conforto. Em seu lugar, disparou-me o lacônico “homens…”. Parti então para o ataque e triunfante mostrei o shampoo, como se lhe dissesse que pelo menos eu conseguira cumprir a minha tarefa. Acreditava que assim me sentiria menos derrotado e ponto final.

Ponto final? Mais um engano meu. Ao deixar a sala, escutei aquele risinho cínico, mas dessa vez carregado por uma boa dose da paixão, quando ela disse que: “amor… você comprou o shampoo errado… mas pode deixar que eu o trocarei, viu?”. Acabamos rindo juntos.

Como havia dito, aconteceu comigo numa ensolarada manhã de um domingo qualquer. Daqueles domingos, que por serem plenos em ociosidade, nos convidam a muito. Futuramente, noutro igual domingo, tenham certeza, preferirei sair e comprar jornal. É menos arriscado.

que é Política?

A questão pode até parecer de fácil e rápida resposta, levando à crença, num primeiro momento, que se trata de tema de pouca complexidade, quiçá profundidade. Há, inclusive, aqueles que dela tentem se esquivarem sob o cômodo pretexto de se autodeclararem seres apolíticos, portanto desinteressados no assunto. Examinado a questão de modo mais criterioso, entretanto, logo será percebido que a política cerca de tal jeito todos os aspectos de nossa vida, que tornar-se-á necessário para cada um, pelo menos, compreendê-la melhor, sob pena de um indesejável exílio social.

Quanto à possibilidade apolítica em si, termo que insinua ausência de Política, num sentido todo particular, ela pode ser comparada a algo característico dos regimes onde a liberdade individual encontra-se bastante cerceada. Porém, como isto ocorre?

Da palavra polis, que significa cidade ou tudo que a ela se refere, qualquer coisa urbana, pública, nasceu o termo politikós. Atualmente, o vocábulo Política passou a ser comumente utilizado como referência a tudo que se relaciona polis, mais precisamente com o Estado.(1)

Política, no claro e objetivo dizer de João Ubaldo Ribeiro, tanto se refere ao exercício de poder quanto às diversas conseqüências implicadas por esse exercício.(2) João Ubaldo, porém, vai além, ao caracterizar a Política como arte, filosofia e até mesmo com ciência, sendo, em uma instância final, uma profissão. Política é arte, visto requerer de quem a pratica sensibilidade especial, além de talento, vocação e modos especiais, virtude as quais, quando reunidas no mesmo indivíduo, o capacita a canalizar interesses e, ressalte-se, tomar decisões corretas. Política, como filosofia, surge quando uma série de questões de ordem moral e filosófica a acompanham, questões estas que têm se mostrado de importância vital ao destino da humanidade. Por outro lado, a Política aparece como ciência, quando se constata ser possível sistematizá-la cientificamente, a partir da observação da relação dos homens com o poder. Finalmente, a Política aparece como profissão daqueles que vivem a guiar ou influenciar a coletividade a qual pertencem, seja em defesa dos interesses da própria coletividade seja representando interesses difusos(3) ou mesmo pessoais.

Ainda de acordo com Ubaldo, caso queiramos modificar uma situação qualquer, no sentido de melhorá-la, devemos nos valer da Política.(4) Deste modo, a Política é entendida como um instrumento de ação social, que objetiva a melhoria da sociedade, propriamente dita.

Norberto Bobbio nos fala que Política, atualmente, passou a ser usado de modo comum indicando as atividades relacionadas ao Estado, conceito aqui já apresentado. O conceito de Política também se encontra, segue afirmando Bobbio, de forma estreitamente conexa ao conceito de poder.(5) O poder político ou o exercício da Política em si, assim caracterizada, pode ocorrer de várias formas como numa relação entre governantes e governados, entre Estado e cidadãos, ou entre uma autoridade e seus subordinados.(6) Ela estará, enfim, sempre presente no relacionamento entre os seres humanos.

A respeito da finalidade da Política, Bobbio defende que ela não possui fins peremptoriamente estabelecidos e, muito menos, uma finalidade ultimal que compreenda todos os possíveis objetivos da Política. Estes seriam tantos quantos sejam as metas de um grupo e ainda mais, eles variariam circunstancialmente e de acordo com a época em que se fizessem necessários ou não. Contudo, conforme Bobbio, é possível aventar um fim mínimo para a Política, fim este que assume a característica de condição imperativa para o exercício da própria Política: a ordem pública, seja nas relações internas seja nas externas, incluindo nesse contexto a integridade nacional, sobremodo nas relações entre Estados.(7)

Por sua vez, Hannah Arendt afirma que a política tem sua base na pluralidade humana e trata da convivência entre homens diferentes.(8) Em outras palavras, ela é a forma que permite a organização dos homens visando à conquista de certos objetivos comuns em meio a um caos de diversidades pessoais. O homem, contudo, segundo a concepção de Arendt, é essencialmente apolítico, sendo a Política um elemento que lhe é externo, existindo tão somente no relacionamento deste com outro. A Política, assim, aparece neste espaço que separa dois homens distintos, como uma relação.(9) Arendt também declara que a política é uma necessidade à vida humana, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade no qual ele vive.(10)

A política ainda, conforme Arendt, possuiria um fim há muito definido: o sentido da política é a liberdade.(11) No entanto, essa liberdade muito mais se aproximaria do conceito grego de liberdade do que alguma definição atual. Desta forma, e assim o confirma Arendt, tal sentido atualmente não parece ser mais tão óbvio. Apesar de tudo, Arendt, falando de modo geral, acredita que a política possa ser um instrumento para um fim que, embora mutável no decorrer dos séculos, pertencesse à esfera de algo mais elevado.(12) Nesse sentido, a política proporcionaria ao indivíduo as condições para que ele demandasse seus próprios objetivos e, num sentido mais amplo, a felicidade.

Há de se considerar, todavia, que os conceitos de Arendt se encontram mais próximos ao que sugere uma filosofia da política ou, usando o termo comum, filosofia política, do que a definição de ciência política. Da mesma forma, tanto esta quanto aquela podem ser diferenciadas, embora todos os conceitos se confundam em determinado momento, da política propriamente dita. Dito isso, vejamos o que distingue estas três disciplinas.

Política, como já visto, pode ser relacionada, grosso modo, a toda atividade relacionada à polis ou a relação existente entre um mínimo de duas pessoas. Complementando, ela é a ação que manipula o poder para que determinadas decisões sejam tomadas. A filosofia política, por sua vez, é uma metodologia, encontrando-se no campo da especulação, reflexiva e crítica, sobre a atividade política.(13) Já a ciência política pretende sistematizar a abordagem e o estudo das disposições e dos fenômenos políticos, a partir de uma minuciosa observação dos fatos. Exatamente por este motivo, o cientista político – no dizer de Bobbio – não formula qualquer juízo com base em dados imprecisos, jamais se abandonado a opiniões ou crenças próprias do vulgo.(14)

Seja dito que, há pouco, foi citada a liberdade como sendo o sentido de toda política. Aqui vale a ressalva de que o sentido de liberdade para os gregos é bem distinto daqueles almejados pelo homem contemporâneo. Resumindo, na liberdade, assim como entendida pelos antigos gregos, o homem era considerado livre apenas quando perfeitamente inserido na vida pública e política de sua cidade. Dessa feita, a liberdade para os gregos é o exercício dos debates público, onde, a partir da pluralidade de pensamentos, opiniões e argumentações, as questões da vida na cidade eram decididas. Atualmente, o sentido de liberdade, além de toda sua conotação pública, como por exemplo o direito de livre expressão, também está intrinsecamente relacionado com o que se convencionou chamar de direito de autodeterminação, ou seja, as inalienáveis garantias de privacidade individual.

A política, desse modo, pode ser entendida como a arte da pluralidade, onde a idéia de haver constantes debates, de tematização das questões de relevância, garantiriam o pleno exercício da liberdade humana.

Todavia, falar em privacidade individual suscita lembrar mais um ponto a respeito do que viria a ser o sentido da política. A experiência política do século XX, conforme apresentada por Arendt, nos induz a entender que a humanidade se move, basicamente, através do campo da força e das guerras.(15) Se, de fato, a guerra representa a ausência de política (mesmo que uma ausência temporária), não seria excessivo concluir que a política tivesse perdido seu sentido original.

Porém, antes de concluir que a política perdeu a sua razão de existir, melhor é entendê-la como algo que ainda merece mais reflexão e ponderação. Do contrário, e em contrapartida a tudo visto, teremos o esvaziamento da política e, conseqüentemente, o enfraquecimento e empobrecimento da capacidade de tematização, de supressão do debate.

Tais conseqüências, num estado posterior, ainda podem se transformar nos elementos que resultarão na interrupção do direito de autodeterminação. Uma vez cessado o direito a privacidade individual, a direta interferência do Estado se fará presente na vida pessoal, eliminado a pluralidade e, em seu lugar, instituindo uma ideologia no lugar da política.

Nesse quadro, talvez todos se comportem de forma apolítica, figurino ideal dos Estados Totalitários.

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NOTAS:

1 BOBBIO, N.; verbete “Política” in BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G.; Dicionário de Politica. Editora UNB e LGE Editora (Brasilia, 2004), vol II, p. 954.
2 RIBEIRO, J. U. – Política. Quem manda, Por que manda, Como manda. Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 1995), p. 13.
3 RIBEIRO – Op. Cit.; p. 17.
4 RIBEIRO – Op. Cit.; p. 29.
5 BOBBIO, N.; verbete “Política” in Op. Cit.; p. 954.
6 BOBBIO, N.; verbete “Política” in Op. Cit.; p. 955.
7 BOBBIO, N.; verbete “Política” in Op. Cit.; p. 957, 958.
8 ARENDT, H. O que é Política? Bertrand Brasil (Rio de Janeiro, 1999); p. 21.
9 ARENDT, H. Op. Cit.; p. 23.
10 ARENDT, H. Op. Cit.; p. 45.
11 ARENDT, H. Op. Cit.; p. 38.
12 ARENDT, H. Op. Cit.; p. 45.
13 D’ENTREVES, A. P.; verbete “Filosofia da Poilítica” in Dicionário de Política. p. 495
14 BOBBIO, N.; verbete “Ciência Política” in Op. Cit.; p. 164.
15 ARENDT, H. Op. Cit.; p. 130.
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pós a publicação de meu artigo sobre a religião thelêmica (que pode ser lido aqui), tenho sido frequentemente questionado pelos estudantes do Sistema Iniciático proposto por Aleister Crowley a respeito da Lei de Thelema ser ou não ser uma Religião. Aproveito este espaço para deixar, mais uma vez, registrado o que penso sobre o assunto.

Embora o tema suscite debates às vezes acalorados, objetivamente há pouco o que se discutir a respeito dele. De fato, Thelema é uma religião, com todas as peculiaridades próprias a qualquer outra religião. Thelema possui sua ‘Bíblia’ (chamada pelos thelemitas de Liber Al vel Legis), seu Profeta (Aleister Crowley), seus dogmas, seus deuses, sua teologia, além de liturgia, Igrejas, Missa, eucaristia, batismo e confirmação, orações, ofertório, fiéis, sacerdotisas, diáconos, sacerdotes, credo, etc. Até mesmo catecismos(1) e uma fantástica lista de Santos a religião thelêmica possui.

Ademais, tanto considerar Thelema uma religião quanto Crowley um Profeta está perfeitamente de acordo com os textos do fundador desta religião (o próprio Crowley). Por exemplo, sobre Thelema ser uma religião, ele fala a respeito do comportamento religioso do thelemita, dizendo de modo muito claro que “Quando você bebe e dança e se delicia, você não está sendo ‘imoral’, você não está ‘arriscando a sua alma imortal’; você está cumprindo os preceitos da nossa SANTA RELIGIÃO”.(2) Já quanto à questão de considerá-lo um Profeta, é ele mesmo quem diz, falando na terceira pessoa, que “Este título lhe é dado mais frequentemente do que qualquer outro”.(3)

Aleister Corwley, fundador da religião thelêmica

A O.T.O. americana, por exemplo, sobremodo a sua variante conhecida pela alcunha ‘Califado’, é bem taxativa sobre o fato de Thelema ser uma Religião. Em concordância com seu dogma iniciático, em sua página oficial é explicitamente e publicamente dito que “a RELIGIÂO conhecida como Thelema foi fundada em 1904 pelo poeta e místico inglês Aleister Crowley (1875 – 1947), que é considerado como seu PROFETA”.(4) O próprio líder da Grande Loja desta ramificação da O.T.O. assevera sem pestanejar que “somos uma Ordem religiosa. Nossa religião é Thelema”.(5)

Alguns thelemitas, entretanto, são um tanto que compreensivelmente reacionários quanto a chamar a religião thelêmica de religião, visto o inevitável e indesejado peso trazido por esta palavra, há muito exageradamente estigmatizada em certos meios com o que de pior existe na humanidade. Daí a tendência destes não aceitaram Thelema como religião, preferindo entendê-la na forma de uma não muito bem definida “filosofia” ou “filosofia de vida”. De todo modo, estes mesmos thelemitas já aceitam dizer que apesar de Thelema ser uma “filosofia”, ela se encontra recheada de um sentimento ou sentido religioso bem grande.

Há de se dizer que a ideia de não se considerar Thelema uma religião pode ser algo muito válido. Isto é semelhante à ideia de considerar o cristianismo apenas uma filosofia de vida e não uma religião. Como ilustração, você pode estar orientado pelo ideal de ser uma boa pessoa que vive de acordo com os princípios pregados por Jesus Cristo e tudo mais, mas sem se submeter às obrigações religiosas impostas, por exemplo, pela Igreja Católica. Deste modo, resumidamente, você não precisará ir a Missa e muito menos deverá fiel obediência nem ao Papa e nem a ninguém que componha o obeso séquito católico. Você será um tipo de Cristão ‘não praticante’, sendo o cristianismo para você uma saudável Filosofia de Vida. Do mesmo modo ocorre com um thelemita. A pessoa poderá viver de acordo com sua regra de ‘Faze o que queres’, mas não se submeter a nenhuma das imposições religiosas e dogmáticas, próprias da religião thelêmica instituída, sobremodo através de suas Ordens Religiosas.

Outro ponto merece ser destacado aqui, ainda no que concerne a premente dificuldade dos thelemitas lidarem bem com a questão de Thelema ser uma religião. Acontece que até mesmo o próprio Aleister Crowley, o criador de todo este sistema religioso, sentia-se estranhamente embaraçado – até irritado – quando questionado sobre o assunto. Depois de se intitular profeta e depois de tanto falar sobre sua religião, sobre a religião dos thelemitas, além da necessidade do mundo ter religião, foi no final da vida que ele passou a se sentir incomodado com este tipo de argumentação. Para que se tenha noção de como o tema passou a perturbar Crowley, vale repetir as palavras de uma das dezenas de cartas presentes em seu volumoso Magick Without Tears: nesta carta, ao ser questionado por uma discípula se Thelema é uma religião, Crowley diz que: “Chame isso de uma nova religião, então, se isso tanto agrada a vossa Graciosa Majestade; mas confesso que não vejo o que você ganhará ao fazer isso, e sinto-me obrigado a acrescentar que você pode facilmente causar um grande mal-entendido, e causar um tipo estúpido de injúria em particular”.(6)

Liber Al vel Legis

Nestas breves palavras, vê-se nitidamente a perturbação causada pelo assunto. A cínica e desnecessária ofensa desferida contra sua discípula, chamando-a de “graciosa majestade”, indica claramente o quanto pouco a vontade o Profeta do Novo Aeon se sentia ante a matéria. Indo além, a curta observação de Crowley “não vejo o que você GANHARÁ” dá pano à reflexão: afinal, caso se trate de ganhar ou perder algo, o que Crowley tem a perder caso se demonstre que Thelema é uma religião ou o que os thelemitas têm a perder com isso? Especulações e reflexões à parte, o que mais salta aos olhos ao longo de toda a carta é justamente aquilo não dito: em nenhum momento é afirmado que Thelema não é uma religião.(7)

Ainda sobre a citada carta, valerá uma rápida palavra final. Aleister Crowley, tão versado na escrita e costumeiramente bastante convincente naquilo que dizia, encerra seu texto de modo precipitado, tosco, quase risível, aparentando simplesmente não saber exatamente mais o que falar sobre o caso. Assim, ele conclui apressadamente a carta dizendo meramente que “a palavra não ocorre em Liber AL”. Ora, se com isso ele quer insinuar que Thelema não é uma religião porque esta palavra não aparece em seu principal texto, então qualquer um poderá inferir que Thelema também não é uma filosofia, pois, igualmente, esta palavra “não ocorre em Liber AL”.

Enfim, considero que os elementos e argumentos estão à mesa, não sendo necessário me estender mais. Finalmente, repito a indicação já feita, caso alguém queira ler um pouco mais sobre os fundamentos da religião thelêmica, uma despretensiosa introdução ao assunto pode ser encontrada em meu artigo Thelema: Uma Religião da Nova Era.

NOTAS:

1 Para passar de grau, o inciado da Ordo Templi Orientis é submetido a um “catecismo”.

2 Ver Liber DCCCXXXVII, texto em português em http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/livros/liber-dcccxxxvii-a-lei-de-liberdade/ . No original, “When you drink and dance and take delight, you are not being immoral, you are not risking your immortal soul; you are fulfilling the precepts of OUR HOLY RELIGION”; em Crowley, A. The Equinox, Vol. III, nº 10, ed. Hymenaeus Beta – Samuel Weiser Inc. (Maine, 1990).

3 “This title is given to him more frequently than any other”, em Crowley A. The Equinox, Vol. V nº 2, ed. Marcelo R. Motta – Thelema Publising (Nashville, 1979), p. 215.

4 “The RELIGION known as Thelema was founded in 1904 by the English poet and mystic Aleister Crowley (1875 – 1947), who is regarded as its PROPHET”. Fonte: http://oto-usa.org/about_thelema.html

5 “We are a religious Order. Our religion is that of Thelema”. Fonte: http://hermetic.com/sabazius/SbSpeech6.htm

6 O texto completo da carta pode ser lido em http://www.thelema.com.br/espaco-novo-aeon/ensaios/religiao-thelema-e-uma-nova-religiao/

7 E não apenas nesta carta. Em nenhuma parte de sua quilométrica obra Crowley afirma que Thelema não é uma religião.
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Há certos “iniciados” que costumam fechar seus ouvidos e consciência à voz daqueles que, mesmo estando no início da jornada, têm algo a lhes comunicar. Não raro é vermos tais iniciados se defenderem e fugirem da argumentação inteligente dizendo algo próximo a “tenho 3 décadas de experiência”. Esta bobagem – relativamente e infelizmente comum no meio esotérico – me faz lembrar uma historieta que escrevi em 1996. Repasso-a novamente para cá. Ela está exatamente como foi publicada, na Primavera daquele ano. Preferi editá-la deste modo, sem revisão, inclusive mantendo os pequenos erros de português que ela contém. Desculpem-me qualquer aparente falta de cuidado, mas é que preferi não alterá-la, em absolutamente NADA.

Assim, ela aqui vai in naturalibus, dedicada aos Irmãos e Irmãs os quais, por descuido ou prepotência, de tanto pensar que têm bastante experiência após décadas no caminho, encontram-se afastados da verdadeira senda Iniciática, da senda do aprendizado e, principalmente do bom senso e da moderação.

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onta uma antiga lenda Sufi que dois dervixes, um já ancião e o outro bem mais jovem, se encontraram por acaso em uma das várias estradas que davam acesso a uma pequena cidade, próxima da região onde eles moravam, na Turquia.

O mais velho dos dois dervixes ostentava uma suntuosa e longuíssima barba, cultivada ao longo de mais de trinta anos de aferrada, insistente e teimosa peregrinação na via do Conhecimento e da Busca de Deus. Perguntado pelo mais novo sobre as razões de se manter uma barba tão comprida e incômoda, respondeu irritado que ela representava todas as suas provações sendo ela a única fiel testemunha de seus feitos e convicções, companheira das conquistas e símbolo de sua sabedoria.

“Ó ancião, não me consta haver relação alguma entre uma barba, por maior que seja, e a sabedoria!”, retorquiu surpreso o descuidado jovem dervixe.

“Você é novo e nada sabe, é melhor calar-se e me acompanhar, se quiser aprender alguma coisa!”, esbravejou com arrogância o ancião barbudo.

Nada restando que pudesse ser dito, o jovem dervixe, então, resignou-se em silêncio e decidiu, por fim, acompanhar o outro.

Orientale with a long beard, by Schongauer MartinLogo encontraram um caudaloso rio cruzando o atalho que os conduzia à pequena cidade. Como não havia pontes nem qualquer alternativa puseram-se a atravessá-lo a nado. Assim, o ancião pôs-se rapidamente a nadar em direção a outra margem, sendo seguido de perto pelo jovem dervixe que o acompanhava. Porém, a força das águas logo cansaria o mais velho que, sob o efeito do peso de sua grande barba encharcada, começava a se afogar. Imediatamente o jovem dervixe sacou uma navalha e ofereceu-a ao ancião, para que esse se livrasse da enorme barba. Foi quando o ancião, com insana veemência e ira, a recusou, dizendo: “jamais, ó infiel! Ela é a prova de minhas conquistas…”

E, desta forma, o velho dervixe, sucumbindo ao peso de sua enorme barba, foi arrastado pela forte correnteza e se afogou.

Quando chegou a outra margem, o atordoado jovem dervixe encontrou um mullá calmamente sentado. O tranqüilo Sábio, que, impassível, assistira toda a cena, disse então: “Não te aflijas, ó jovem aprendiz, mas sabe que a ti foi conferida uma nobre honra!”.

“Como? não entendo o que queres proferir, ó mullá.” Disse ainda meio que sem fôlego o jovem dervixe.

“Regozija-te, ó tu que és novo na Senda da Iluminação!” – continuou o Sábio – “pois viste o exemplo vivo de como A Busca de Deus é tolamente trocada pelas conquistas do caminho.”

“O homem, tal como o bode, não deve se envergonhar de sua própria barba; mas também não deve ter receio, nem acanho, em tirá-la, pois se ela indica beleza, não é a Beleza, assim como as conquistas do Caminho da Busca de Deus, não são Deus.”

“Da mesma forma, as convicções não indicam sabedoria, porquanto o saber está em acompanhar o ritmo dos tempos mesmo que para isso tenhamos que nos desfazer do excessivo peso das nossas próprias certezas, ainda que estas acumulem mais de três décadas…”

“Quando aquele infeliz dervixe recusou-se a cortar a própria barba, dando mais importância às suas posses do que a vida, que é a Busca de Deus, ele recusou a lição das águas, a lição do passar dos tempos, e pereceu ante a tola ilusão de sua própria grandeza.”

“Pois não importa a posse, mas sim o sentido e a atitude do homem perante as conquistas; e, da mesma forma pela qual muda a posição das estrelas conforme a variação das estações, nunca haverá doutrina ou convicção pessoal que resista a variação da vida em sua eterna ânsia de constante mudança!”

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Fonte da Imagem: “Orientale with a long beard”, by Schongauer Martin.

PS.: o pequeno conto é livremente inspirado pelo “A Linguagem dos Pássaros”, de Farid ud-Din Attar.

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