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. Escalas

á me disseram que uma das consequências do estudo da Astronomia é, metaforicamente falando, pôr o ser humano “em seu devido lugar”. Concordei com isso, principalmente quando consideramos o significado destas aspas metafóricas. Por exemplo, ao ler sobre o Sol, a estrela anã de cujo quintal fazemos parte, sentimo-nos irrisoriamente pequenos ante sua grandeza. De nosso ponto de vista, ela é enorme, gigante. Apenas para se ter uma ideia do tamanho do Astro Rei, basta dizer que sua circunferência beira os 4,4 milhões de quilômetros. Esta imensidão, por si mesma, já justificaria a importância exercida pelo Sol ao longo de toda a história. Para dizer quase o mínimo, ele inspirou a criação de vários cultos e religiões, sendo o modelo maior de vida, de renascimento, etc.

Contudo, a Astronomia consegue ser bem mais cruel conosco quanto a nossa suposta insignificância, caso nos afastemos para um ponto bem mais distante desse nosso quintal chamado Sistema Solar. Assim, ao nos depararmos com algo do tipo VY Canis Majoris, uma estrela vermelha hipergigante situada na constelação de mesmo nome, Cão Maior, é realmente difícil conter um sentimento tolo de pequenez. A tal estrela tem uma circunferência de cerca de 3 bilhões de quilômetros, capazes de tornar ate mesmo o nosso querido Sol, bem como tudo o que ele significa, algo “insignificante”.

Nestes jogos de escalas, e ao observar o que vem acontecendo às pessoas, de modo geral, eu até que gostaria de sugerir a todos nós um pouco mais de humildade no trato com as certezas hodiernas que nos cercam. Elas não são tão importantes. Todavia, desisti de sugerir qualquer coisa, pois creio que nem mesmo isto teria significado algum.

Então, calo-me.

Fiz este registro fotográfico há pouco, em frente à agência dos Correios da Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, Rio de Janeiro. Nele, vemos que alguém chamado Rogério quer vender seu imóvel. Com este fito, ele faz desavergonhado – e, certamente, criminoso – uso do “espaço oferecido” pela placa de trânsito, cobrindo-o quase que completamente com seu anúncio.

Quando de minha graduação em História, aprendi que o brasileiro mediano sofre da mazela de confundir o que é público e o que é privado. A confusão, todavia, sempre ruma no sentido de considerar privado o que na verdade é público. O contrário não acontece. Em suma, esta chaga faz que uma pessoa qualquer considere seu um bem que não é dela, mas que pertence à coletividade. Segundo li naquela época, esta é a raiz de muitos males pelos quais padece o Brasil desde o período colonial.

Não pretendo aqui me estender no assunto. Todavia, digo que outro problema que assola o comportamento padrão do brasileiro é a falta de vergonha na cara. O tal Rogério assim o atesta.

s demônios existem e talvez a primeira de suas malvadezas seja nos levar a crer que podemos controlá-los. Para dizer logo, a recomendação mais sábia a se tomar no trato com eles é bem simples e eficaz: mantenha-se longe. Aparte-se deles. Ordinariamente, evite-os. Se possível, definitivamente. Eles não virão ao seu encalço, caso não sejam procurados antes por você. Apesar deste conselho – sim, sei disso – sempre haverá gentes interessadas em contatá-los bem de pertinho. Estas afirmam que tal encontro é possível, embora seja estritamente logrado, de modo bastante particular, apenas por Iniciados em certas artes mágicas e secretas. O conhecimento daí advindo, elas seguem afirmando, conferirá grande sabedoria e poder. Infelizmente, não tenho como atestá-las aqui. Sei apenas que com tal propósito, estas gentes vasculham “curiosos tomos de ciências ancestrais”, perscrutando ali variados encantamentos, além de meios e modos de contatar e controlar Demônios. Nestes sentidos, e sabedor de que aquele conselho inicialmente deixado não valerá qualquer vintém às mentes ávidas por realizar conjuros, penso ser prudente ao menos deixar aqui o registro de prescrições medulares a serem tomadas quando alguém estiver lidando diretamente com demônios. Ei-las: primeiro, mantenha-se a uma distância segura e se certifique que eles estarão devidamente encerrados nos respectivos “círculos” aos quais foram chamados. Depois, trate-os sempre com respeito, moderada cortesia e leve firmeza, porém, evite ser autoritário. Aja como se fossem iguais a você. Em seguida, jamais caçoe deles, pois certo é que demônios temem gargalhadas e troças e que sem demora delas fugirão, mas logo voltarão, ainda mais fortes, e se vingarão de você. Algo importante, de maneira nenhuma se delongue em demasia. Seja direto, claro, fale o que quer e se despeça. Por último, lembre-se de uma vez por todas que a arte de ludibriar é a especialidade dos demônios. Assim, como muito bem nos alerta o sábio polímata Cornelius Agrippa, temos que nos precaver, pois mesmo os demônios ora controlados são capazes de nos engrupir onde quer que estejamos.

Então, tais são as prescrições para lidar com demônios. Em tempo, as mesmas são aplicáveis no trato à boa parte das pessoas.

(na imagem, cena de “El día de la Bestia”, Espanha, 1995; dirigido por Álex de la Iglesia)

cabei de tropeçar na expressão “sensitivity reader”. Traduzindo livremente, a coisa seria dita no idioma de Camões como leitor ou leitora sensível. Pelo que entendi, muito em suma, trata-se do profissional contratado para ler os originais de uma obra que fora submetida à editora e que, à revelia do que pensa seu autor, providenciará “alterações” no texto. O propósito desta “revisão” é a evitação de linguajar considerado excludente. Dito de outro modo, a ideia básica é fazer tudo para que desapareçam dali termos que supostamente possam desagradar minorias. Ao que tudo indica, este profissional deve ser uma espécie de bastião máximo da ética e da moral, do politicamente muito correto e com a búdica capacidade de saber não desagradar a quem quer que seja. Assim, apenas com o aval e chancela deste profissional, o nosso “imprimatur” dos tempos contemporâneos, é que a obra será publicada.

Ou seja, dane-se o autor, dane-se a liberdade de expressão e que se dane a literatura. É o seu fim.