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Archive for the ‘Alice’ Category

á pouco, faltou energia por aqui. A região inteira ficou às escuras. Por óbvio, estava com várias luzes acessas. Também, vários equipamentos ligados. De súbito, tudo escuro, tudo desligado. A filha avisa em sonora voz “faltou luz, pápi!”. Ok, tenho que agir. Contudo, o que fazer? Penso, e rápido. Tenho uma lanterninha tipo “led”. Ela é pequena e potente. Direi melhor: ela é bem pequena e muito potente. Às escuras, procurei-a. Depois de sete ou oito minutos, achei-a. A coisinha se ocultara em meio a papéis. Demorou, todavia, encontrei-a. Finalmente. Reestabelecerei a ordem, pensei de novo. Respirei com alívio. Pode uma reles lanterna ser um bálsamo. Aquela, de fato, era. Afinal, baniria a escuridão daquele momento. O negrume se desvanecerá. Avisei à criança que a luz voltaria agora. “Deixa comigo, filha”. Foi minha despretensiosa fala. Finalmente, acionaria o pequeno lumaréu. Confiante, liguei a lanterna. No exato momento – estranha tautocronia – todas as luzes da casa acenderam. Os equipamentos religaram. De fato, a ordem fora reestabelecida. Olhei à lanterninha, surpreso. Novamente, pensei: sim, bem pequena e muito potente. Que inusual coincidência. Ligar a lanterna e a energia da região voltar! Uma curiosa concomitância de eventos mutuamente não relacionados. Ri. A sincronia me pareceu uma zombaria. Uma espécie de pilhéria vinda dos Deuses. Deuses, nos quais, não acredito. Enfim, ouvi minha filha dizer “boa, papai!”. Então, tudo fez sentido. Ok, deixe estar assim. Grato, Providência. Faça-se luz e noite que segue.

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(obs.: texto originalmente escrito em 28/02/2016)

letra_foi agora, há pouco, nesta última 3ª-feira gorda. Concordei em levar Alice a um baile de Carnaval infantil. Estávamos longe da folia, é certo. Contudo, pareceu-me uma boa ideia levá-la ao festejo. Conforme dita o bom discurso, comportado e correto, sei que a vida social é importante às crianças. Então – por que não? -, um bailinho é uma das formas pelas quais o mundo vai sendo apresentado àos párvulos.

Assim, com a criança devidamente paramentada, partimos ao baile. Ela estava felicíssima com sua vestimenta de bruxinha. Chegamos ao local e compramos os ingressos. O clube que promovia o evento era bom. O baile estava animado. Muitos ali se divertiam de verdade. Uma coisa honesta, de fato. Em meio ao pessoal, desfilavam alguns personagens do rico mundo das crianças. Ao chegarmos, o som de um pagodão qualquer inundava o ar. Um pouco depois, algumas músicas infantis seriam tocadas. Vez por outra apareceria um samba-enredo daqueles bem tradicionais. Troço legal. Noutras vezes, novamente outro pagode encontraria seu espaço naquele ambiente. Paciência…

Todavia, o ponto que destaco aqui é: assim que chegamos, repentinamente Alice pareceu estranhamente constrangida. Parou de falar, franziu a testinha e desse modo ficou. Não sei exatamente por que. Não sei se foi o tal pagodão, se foram os personagens ou o calor que fazia. Só sei que de repente ela “descurtiu” a coisa. Tentamos distraí-la mas nada mudava. Por fim, após brevíssimos cinco minutos no local, Alice se vira para a mãe e diz, resoluta:

– Mamãe, me tira daqui.

Insistimos mais um pouco. Não adiantou. Cerca de trinta minutos depois, fomos embora.

Ficamos frustrados, certamente. Afinal, não conseguimos fazer com que nossa filha se divertisse. Sim, havia também os ingressos. Um gasto a mais e sem o devido retorno. Enfim, fomos mesmo embora. Logo depois de sairmos do baile, o bom humor de Alice havia voltado. Fomos a uma feirinha, comemos crepe e voltamos à casa.

Por certo, não esqueceremos aquela 3ª-feira gorda. Contudo, confissão óbvia, não disfarço a pontinha de orgulho ao saber que minha filha detestou aquele evento carnavalesco.

serpentinas

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scribatus_letra_Alice tem um boneco Stormtrooper que ela adora. É seu companheiro em várias brincadeiras. Nestas, sempre há vários tiros dados por ele. Coisa óbvia em se tratando de Stormtroopers. Pois bem, estava eu numa dessas brincadeiras, enquanto os tais “tiros” eram dados a toda hora. A ação era frenética. Havia muita tensão nela. De repente, o boneco apontou a arma para mim. Então Alice tratou de me alertar:

– Cuidado, papai, o stromtrûpir que atirar em você!!!
– Socorro! Disse eu. Alguém me ajude!

Logo depois, ao me ver “sinceramente” preocupado e com medo, ela se comoveu com a cena. Olhou para os lados. Chamou-me mais para perto dela, indo direto a meu ouvido. Assim, confidenciou-me, bem baixinho, um grande segredo, dos mais sérios, e que somente ela sabia:

– Não se preocupe, papai, ele não atira muito bem, tá bom?

Agradeci a confidência e a brincadeira seguiu, frenética como sempre.

Por último, uma informação para tranquilizar os que por aqui pousaram seus os olhos: estou bem e não fui atingido pelo Stormtrooper. E que a força esteja com todos.

Bom dia!

Ele não atira muito bem...

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letra_Este caminheiro que aí se apresenta possui uma missão. Ela é árdua, difícil. Possivelmente, suas consequências, uma vez não satisfeita a urgente demanda, podem ser cruéis. Empreendido numa busca, ele almeja algo encontrar. O quê? Deixo-vos algumas opções, sendo uma apenas a correta:

A) Ele quer encontrar a verdade, uma nova luz à humanidade;
B) Anseia, tal qual Diógenes, o Cínico, achar o humano ideal, assim como definido por Platão;
C) Aceso o candeeiro, fazer as vias do Eremita, a inspirar a criatura humana;
D) Quer apenas, desesperadamente, encontrar a tarraxinha do brinquinho de sua filhinha… e haja diminutivos…

lanterna

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. A vassourinha

letra_Já faz alguns meses, Alice recebeu de presente da avó paterna uma vassoura pequena. O instrumento é adequado à altura duma criança de quatro anos. A ideia é simples, até boa. Ocorre que crianças – mães e pais o saberão – têm fascinação por vassouras. Não podem ver alguém usá-la que logo quererão ajudar na varrição. O resultado desta “ajuda” nem sempre é bom: janelas quebradas, pessoas atingidas, objetos derrubados, etc. O detalhe macabro é que a sujeira, objeto primeiro de qualquer varrida, quando um destes infantes dirige a vassoura, permanecerá lá no chão, incólume. Então, de posse da vassoura mirim, as crianças – milagre dos milagres – imediatamente esquecem a vassoura adulta. Como dito, a ideia é simples, até boa. Todavia…

Enfim, fato é que minha filha recebeu de presente uma destas vassourinhas. Já faz algum tempo. Naquele momento, o artifício funcionou perfeitamente, como esperado. Logo, Alice passou a ignorar a vassoura adulta. De início, a vassourinha foi usada como vassoura, freneticamente a varrer ou, melhor dizendo, espalhar qualquer sujeirinha do chão.

Com o passar do tempo, porém, a brincadeira da varrida foi deixando de ter graça para Alice. Na verdade, todas as crianças aprendem muito rápido sobre o quão chato e detestável é varrer o chão. Porém, a imaginação infantil! Ah, a imaginação infantil, como é pródiga! Logo, a vassourinha assumiu o viés de um cavalinho de pau. Pronto, lá vai Alice em disparada pela casa, montando seu novo brinquedo, o cavalinho. Depois, claro, o cavalinho perderia toda a graça… sem problemas para ela que passou a ver ali uma guitarra de rock’n roll… depois o objeto se transformaria num microfone… etc.

Sim, mais acima foi escrito um “todavia”. Ei-lo aqui, finalmente. Acontece que todas aquelas brincadeiras são bem lúdicas e interessantes. Todavia, eis que hoje Alice cismou de ver na vassourinha uma espada. Uma espada! Com a desenvoltura de fazer inveja a monges Shaolins , Alice rodava a “espada”, ameaçando suas bonecas, seus bonecos e, indiretamente, tudo aquilo que estava perto. Inclusive as humanas criaturas. Por mais que a alertássemos, nem Juliana nem eu, conseguimos fazê-la entender o perigo daquela “arma”. Resultado, decidimos tirar a vassourinha, ou melhor, a espada, da Alice. Por sua vez, ela, percebendo nossa intenção, saiu em nova disparada pela casa adentro. Instantes depois, Alice voltou sem a “espada”, encontrou a mãe e lhe disse, muito convicta:

– Mãe: escondi a minha vassoura embaixo da cama da vovó. Assim você não vai descobrir onde ela está!

Bem, por óbvio, até agora “não sabemos” onde está escondida a tal da vassourinha…

E segue a vida!

vassoura[1]

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scribatus_letra_Aaventura de fazer com que uma criança durma é algo que somente pais e mães dedicados saberiam descrever com moderada precisão. Rodeamos, iludimos, oramos, contamos histórias e estórias, encenamos. Enfim, tudo a serviço de nosso egoico e mais honesto desejo de ver nossos rebentos partirem para o reino de Hipnos, o não tão famoso deus do sono, pai do muito mais que famoso Morfeus, deus dos sonhos…

Enfim, pondo jocosamente a literatura grega arcaica de lado, esforçava-me para dar cabo do sono de Alice. Ela, como sempre, irrequieta e traquina, resistia a todos os meus artifícios. Ria e rolava na cama, como se debochasse de meus vãos esforços e preces para que finalmente ela dormisse. Depois dum tempo que me pareceu enorme, quase infinito, finalmente suas pequenas pálpebras pareceram subitamente pesadas. Foram caindo, caindo, caindo, até que seus olhinhos fecharam. “Venci de novo”, foi meu apressado pensamento.

Instantes depois, aqueles olhinhos marotos se abrem. Um leve sorriso cínico é feito por ela. Então, Alice se senta na cama e começa, a plenos pulmões a cantar:

– Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! Viva vivaaaaaaa!

Assim, novamente começam os rodeios, as ilusões, as orações, as histórias e as estórias, as encenações à Alice. Isso tudo até que, finamente, Hipnos, aquele não tão famoso deus do sono, tome-a a seus cuidados.

De todo modo, mesmo cansado, quase destruído, não tenho como esconder minha satisfação. Afinal, a julgar pela canção, de fato devo esta fazendo alguma coisa certa…

Imprimatur_sociedade_alternativa

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scribatus_letra_Estávamos num estúdio. Tatuar era o ofício dos profissionais de lá. Todos muito competentes. Alice observava a mãe ser tatuada. Intrigada, fazia interrogações e exclamações sem fim. Não dói, né? Que lindo! Já acabou? Qual cor? Que legal, mãe! Tá bonita! E assim, enquanto o tempo passava, a tatuagem tomava forma. Por assim dizer, ela ia brotando, brotando, brotando…

Aconteceu de haver ali um outro sendo tatuado. Tratava-se dum rapaz. Escolhera um par de asas. Asas de anjo, por certo. Difícil de se inferir, isto nem de longe era. Rapaz de bom gosto. Não seria sua primeira tatuagem. Contudo, de tamanho médio, aquelas asas seriam especiais. Uma espécie de destaque. A bela tattoo passaria a lhe habitar a parte posterior do pescoço. De tamanho médio, ia da nunca até o início das costas. Também lhe alcançava as laterais, como se acarinhasse parcialmente o pescoço do jovem. Enquanto a imagem era feita, o rapaz discretamente se contorcia. Franzia bastante a testa. A dor era evidente. Resignado, entretanto, ele ia resistindo. E resistindo ficou, enquanto a tatuagem ia, por assim dizer, brotando, brotando, brotando em sua pele.

Alice notou o rapaz. Viu-lhe as asas. Olhou-as, observou-as. Olhou-as de novo. Por sua vez, os tatuadores seguiam em seus trabalhos. Como já afirmado, todos muito competentes. Compenetrados, concentrados e bem atentos. Por força do ofício, circunspectos. E Alice continuava ali. Irrequieta, via aquelas tatuagens nascerem. De repente, seus olhinhos brilharam. Conheço-a bem: ela deduzira algo. Então, Alice olhou para a mãe. Com plenos pulmões, disse-lhe, apontando aquelas asas:

– É uma galinha, mãe!

Breve momento de tensão. O rapaz franziu ainda mais a testa. Já os tatuadores – dizendo novamente, profissionais experientes -, começaram a rir. Por fim, todos riram. Ufa, pensei. Não foi assim tão grave… Pouco depois, as asas ficaram prontas. Ficaram muito bonitas. Trabalho bem feito. O rapaz, ao sair, ainda demonstrava desconforto. Fora do recinto, esticou-se. Franziu mais uma vez a fronte. Percebi que, de soslaio, ele olhou para dentro da loja. Balouçou a cabeça, pôs a mão na nova tattoo e foi embora.

Agora, quedo-me em dúvida. Não sei interpretar esse gesto. Talvez o balouço seja mesmo mera consequência da dor sentida por ele… ou – quem o saberá? –, seja efeito dalgum titubeio a respeito da escolha daquela bela imagem.

wings_tattoo

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