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Archive for the ‘Ceticismo’ Category

á pouco, deixei uma bermuda lá na costureira. Havia rasgado, mas como é quase nova, nada como um pequeno reparo. Preferi isto no lugar de comprar outra. Todos hão de concordar, em tempos de crise, qualquer economia nos cai muito bem. Enfim…

Lá no ateliê, mostrei a peça para a costureira. Ela a olhou meticulosamente. Revirou-a toda. Deve ser competente, pensei. Depois, pegou um papel e começou a anotar algumas informações. Meu nome, telefone, tipo de serviço, quando estará pronto, quanto custará, etc. No tipo de roupa, por evidente, escreveu “bermuda”. Então, mistério dos mistérios, ela me fita sisudamente e me pergunta:

– Senhor, qual é a cor de sua bermuda?
– Hã?
– A cor, ué! Qual a cor de sua roupa?

Hesitei um pouco sem entender direito a coisa. Ora bolas. Ela não estava vendo a bermuda? Por que então não escrevia logo a cor? Confesso, complicou-me ainda o fato que tenho uma certa dificuldade com tons intermediários de cores. Por exemplo, defino bem o amarelo, o verde e o azul. Contudo, o “entre cores”… ô dificuldade… mas isto é outra estória. O diálogo seguiu:

– Senhora, não sei bem que cor é esta. Não é preta, mas também está longe de ser cinza.
– E então?
– Parece até um verde bem escurão. Você pode me dizer que cor é essa?
– Não.
– Não?
– Não.
– Mas, por que não?
– Senhor, é o cliente que TEM que declarar a cor da própria roupa…

Nova confissão: quase caí na gargalhada. Porém, segurei o meu maxilar (literalmente) e me contive. Como eu não havia pensado nisto antes? A coisa é óbvia, indubitável. Claro! O cliente ou a cliente! Ninguém senão estes é que têm que declarar a cor da própria roupa! Sério!

Respirei fundo e olhei para minha bermuda. Pensei em dizer “carmesim” para costureira, mas achei melhor não. Vivemos tempos estranhamente conturbados. Qualquer piada, por mais inocente que seja, pode ser tomada como ofensa. Sejamos então adequados à situação. Politicamente corretos e respeitosos. Assim, logo depois, bem circunspecto, finalmente respondi a aquela profissional, indiscutivelmente muito competente:

– Humm… Cinza. Minha bermuda é da cor cinza. Melhor, escreve aí: cinza escuro.
– Perfeito, senhor. Tome aqui a notinha. Obrigado.
– De nada.

Saí do ateliê. Ao longo do caminho, meditei um pouco sobre a seriedade desta questão. Da cor de minha bermuda e da estranheza deste mundão em que vivemos. De repente, uma dúvida brotou em minha mente. “Cinza escuro”? Que tipo de resposta é essa? Certamente há algum termo melhor – muito melhor – para definir esta cor. Qual será? Pensei um pouco a respeito, porém, já o disse, possuo certa dificuldade com cores intermediárias. Não encontrei o tal termo.

Já em casa, entretanto, obsessivo que sou quando desconheço certos assuntos, busquei me ilustrar. Procurei online uma paleta de cores e achei o que procurava. Destarte, da próxima vez que me perguntarem a cor daquela minha bermuda, empinarei discretamente o nariz e direi:

– Grafite.

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letra_Hoje é dia 21 de Maio de 2011. Uma data limítrofe? Alguns a querem desse modo. Para mim, é limítrofe apenas porque graças ao que parecerá para aqueles um mero capricho matemático, o dia de hoje sucede o dia de ontem, 20 de maio, e antecede o dia de amanhã, 22. O que isso significa? Absolutamente nada. Em nível mundial, o que acontecerá de apocalíptico hoje? Nada. Quantas almas serão salvas? Nenhuma. Quantas serão lançadas à eterna danação do inferno? Nenhuma. E daí? E daí nada.

tromboneTodavia, o bafafá que cerca a presente data parece ter sido causado por mais um desses questionáveis fundamentalistas grupos cristãos evangélicos estadunidenses. Conforme o tal monturo californiano (não citarei o nome, evitando fazer aqui qualquer tipo de propaganda), hoje ocorrerá nada mais nada menos do que o Juízo Final. Assim, já que Ezequiel (33:3) disse para botar a boca no trombone e avisar o povão a respeito da má nova, em várias frentes, os membros do tal grupo saíram aos berros pelas ruas, advertindo os desavisados quanto à urgência da data. O site da seita também alardeava os internautas quanto ao vindouro episódio, convocando a todos para que finalmente e de uma vez por todas se reconciliassem com Deus: outra chance não haveria. É pegar ou largar, salvar-se ou se danar pela eternidade afora.

Obviamente, por canhestra, não há como abordar a coisa de forma outra senão com ironia. Mesmo assim, é possível fazer duas perguntas básicas a respeito do caso. Primeiro, há ainda quem acredite em tolices obscurantistas deste quilate? Depois, por que será que um grupo faz uma previsão destas? As respostas são simples e avassaladoras. Infelizmente, de fato ainda existem muitos que se agarram e têm fé em previsões. Tais almas continuarão sendo exploradas, estorquidas e, de dízimo em dízimo, serão “dizimadas”, pelo menos financeiramente. Ocorre que os pobres coitados que desse modo são ludibriados acreditam tão verdadeiramente na coisa que sequer serão capazes de pensar na seguinte charada: se amanhã não existirá mais o mundo, por que pagar hoje o dízimo? Quanto a grupos que vaticinam apocalipses, é bem simplória a razão de fazê-lo: mera autopropaganda. Por exemplo, no próprio caso, você já tinha ouvido falar na seita em questão? Pois é, mas se acompanhou o burburinho, mesmo que por um relance fortuito, passou a conhecê-la. Nisso se resumo o imbróglio.

O certo é que mais uma vez se comprovará o que o saudoso Stephen Jay Gould há muito disse (no livro O Milênio em Questão): as previsões de fim-de-mundo têm um cruel ponto comum, pois todas elas falharam, levando seus vaticinadores e todos os que piamente nelas tinham fé ao ridículo e ao descrédito.

No mais, digo apenas uma coisa: até amanhã.

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lgumas pessoas afirmam que a idéia da existência de uma inteligência suprema, Deus, não passa de uma muleta. Eu até que concordo. Também creio que Deus seja uma grande muleta, necessária para dar conforto a muitos, sobremodo em momentos criticos da vida. Contudo, certamente que existem perspectivas diversas desta.

Falar em muleta faz duas determinadas imagens despontarem em meu pensamento. Primeiro, trata-se daquela ilustração representativa do Arcano IX, o Eremita: sua figura traz em uma das mão uma espécie de arrimo, bengala ou muleta. Depois, o assunto também me remete ao já muito especulado enigma da Esfinge, hoje transformado em mera charada a ser proposta nas rodas infantís. Relembrando-o, havia a seguinte questão lançada pelo Monstro grego: qual é o animal que pela manhã caminha com quatro pernas, ao meio-dia usa duas pernas, porém, quando do crepúsculo vespertino, passa então a caminhar com três pernas?

O enigma, segundo a lenda que lhe deu origem, consumiu muitas almas. Todas elas, mesmo que ávidas por solucioná-lo, não foram sábias o suficiente para decifrar o tão fadado mistério, falha essa que as levou a sucumbirem perante a Esfinge. Isto até que Édipo, o trágico herói, finalmente entendesse a parábola: “o Homem” é a resposta, disse. Ele engatinha em criança, caminha normalmente com duas pernas quando adulto e, quando de sua velhice, faz uso de um bastão, a muleta, caminhando com três pernas.

Buscando algum singnificado noutros símbolos, chega-se até mesmo ao que nos dizem os números 4, 2 e 3. Assim, outras interpretações do enigma (por vezes pejorativas, mas às vezes agradáveis)  têm vez.

Numa delas, vemos o número 4 associado à matéria, uma representação das paixões, da imaturidade. Isso é refletido pela citada lenda como o conceito de “criança”, ou mesmo da juventude, significando um estado inicial de vida, seu amanhecer. Seguindo pela mesma via interpretativa, o número 2 desponta como o vigor das decisões, a escolha entre fazer as coisas de um modo ou de outro, a vitalidade varonil. Sua representação é a “décima casa” (no dizer astrológico), o meio-dia, o zênite da vida e o auge da vitalidade solar. Na lenda, é o ser maduro, representado pelo caminhar seguro feito com 2 pernas, emblema do ser racional e lógico, sempre medido a partir de dicotomias, como o “certo” e o “errado”, a direita e a esquerda, por exemplo. Por sua vez, frequentemente o número 3 aparece como um ínone relacionado ao equilíbrio. Na resposta da charada da Esfinde, este número estará relacionado ao entardecer, à chegada da velhice, quando o homem então na condição de Sábio, põe-se a caminhar com três pernas, fazendo uso de uma muleta ou cajado, como muitos preferirão dizer. Deste modo, o número 3 aqui também desponta como representante das coisas ditas espirituais.

Por fim, retorno à afirmação “Deus é uma muleta”. Às vezes, por certo que a muleta pode existir. No entanto, em certo sentido – como na imagem do Eremita e como no enigma proposto pela Esfinge – ela seria a consequência de um certo “estado de sabedoria”. Em outras palavras, pontos de vista que diferem: muleta como sinal de fraqueza ou muleta como sinal de sabedoria. Não sei ao certo com qual deles estarei identificado quando estiver velhinho, embora tenha uma certa predileção pelo segundo momento.

De todo modo, imaginemos um velhinho bem debilitado, cujo apoio único seja a sua surrada muleta: quem seria a pessoa a privá-lo de seu sustento?

Um grande abraço.

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What drives me to despair
is not the dishonesty of the charlatans who peddle such tosh,
but the dopey gullibility of the thousands of nice,
well meaning people
(Richard Dawkins, a respeito do filme Quem somos nós)

scribatus_letra_Presente nas telas dos cinemas de algumas capitais brasileiras por um breve período, há muito já está nas locadoras brasileiras uma espécie de documentário-filme denominado What The Bleep do we Know?, aqui exibido sob a sugestiva graça “Quem somos nós?”. Embora até agora eu custe a acreditar, fato é que a produção continua causando um certo frenesi no sempre-receptivo meio místico.

 

Pois bem, de tanto falarem do filme – cheguei a escutar incontidos eufóricos do tipo “o filme da minha vida” – decidi assisti-lo, o que fiz nesse último final de semana.

quem_somosEconomizando palavras, é tudo muito ruim. Na alternada mistura feita entre documentário e filme, a grande dúvida que paira é qual dos dois é pior. Quanto ao filme, para falar pouco, muitos dos personagens secundários se perdem na história, simplesmente somem como se ali nunca estivessem; a história é capenga, cheia de buracos; além de muito monótona e estranhamente boboca. Sobre o documentário em si, talvez fosse melhor nem comentar, uma vez que os cientistas (ali colocados apenas para dar alguma credibilidade ao inacreditável) não dizem coisas com coisas. Ressalte-se que, quanto à parte considerada científica, séria, da produção, sua principal estrela é uma risível senhora chamada Ramtha, a dar mensagens canalizadas (melhor seria dizer canalhizadas) advindas de um invertebrado gasoso de codinome “JZ Knight” (JZ é um óbvio apelo fonético para lembrar a pronúncia de “jesus” em inglês). Certamente, entendem os produtores de “Quem somos nós?” que a canalização da Ramtha é algo científico, testada e comprovada (talvez com selo de qualidade ISO). Aliás, tamanha é a insana reverência que têm os produtores para com o invertebrado, que lá nos “agradecimentos” se encontra estampado, destacado em primeiro lugar, o nome “JZ Knight’. É ver para crer.

Após assistir tão horrorosa produção, resolvi buscar na Internet algo a respeito. Encontrei nas palavras de Richard Dawkins, o famoso biólogo evolucionista, uma crítica mordaz ao filme que expressa exatamente o que penso sobre a crendice. Resumidamente, ele diz que…

“This film is even more pretentious than it is boring. And it is stupefyingly boring – unless, of course, you are fooled by its New Age fakery, in which case it might indeed be – as many innocent dupes have stated – ‘life-changing’ […] What drives me to despair is not the dishonesty of the charlatans who peddle such tosh, but the dopey gullibility of the thousands of nice, well meaning people who flock to the cinema and believe it.” Para quem quiser, o depoimento todo pode ser lido aqui.

Enfim, não é o charlatanismo que mais preocupa, mas sim a quantidade de pessoas propensas a aceitar tudo o que os charlatões lhes dizem, como se simplesmente não possuíssem qualquer senso crítico.

Nunca assisti algo assim, tão ruim, tão falso, tão medíocre e ao mesmo tempo tão pretensioso em toda minha vida. Contudo, como se tudo isso já não bastasse para considerar o “Quem somos nós?” algo insuportavelmente infeliz, a péssima nova é que conseguiram piorar a coisa, pois já chegou nas locadoras a sua indesejável “versão estendida”… aaargh!! por Parmênides!!!! I need a drink…

Abraços.

Carlos Raposo

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scribatus_letra_A presente recomendação de leitura compreende o último capítulo (“Boas e más razões para crer – Uma Oração à minha Filha”) do excelente e instigante O Capelão do Diabo, do biólogo evolucionista Richard Dawkins, publicado pela Companhia das Letras. Nele, o autor escreve uma longa carta para sua filha de dez anos, alertando-a contra o que ele chama de as “três más razões para acreditar em algo”: tradição, autoridade e revelação.

O autor, há certo tempo colocado em 3º lugar numa espécie de ranking mundial de intelectuais vivos (confira aqui a relação), começa o texto, dizendo:

“Querida Juliet,

Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que é muito importante para mim. Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta para essas perguntas é “provas”. Às vezes “prova” significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar…) que algo é verdade. Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A “estrela-d’alva” parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é uma linda bola – o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando…) é chamada de observação.

Freqüentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém (menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu o crime.

Os cientistas – os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o mundo e o universo – freqüentemente trabalham como detetives. Eles dão um palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para si mesmos: “Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa”. Isso é chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no ponto de onde partiu. Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente está com sarampo, devo encontrar… E ele então consulta sua lista de previsões e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão e diz: “Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo”. Às vezes, os médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raio X, que ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.

O modo como os cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alerta-la sobre três más razões para acreditar em algo. Elas se chamam ‘tradição’, ‘autoridade” e “revelação”….

Quem tiver interesse, poderá fazer a leitura do restante do texto de Dawkins no Site da Unicamp.

Vale a reflexão.

Atenciosamente:

Carlos Raposo

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