Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Cotidiano’ Category

stava com fome. Já o disse em algum outro lugar: dos Pecados Capitais, a Gula é minha predileta. Assim, na rua, atraiu-me uma barraquinha. Era daquelas que vendem X-alguma-coisa. Uns baitas sanduíches. Olhei para os lados, ninguém conhecido à vista. Era o estímulo que precisava. Logo, aproximei-me da tal barraca. Olhei o variado cardápio. A fome aumentou. Chamou-me a atenção a imagem do X-Tudo. Algo com “tudo” deve me bastar, pensei. Não! Aquele outro parece mais apetitoso: um X-Tudão. Movido pelo já citado Pecado, dirigi-me ao dono do estabelecimento.

– Amigo, como é este X-Tudo? O que tem nele?
– Ô, bro! O X-Tudo tem tudo, né?
– Sim, e o X-Tudão?
– Ah, o X-Tudão é especial. Ele tem tudão!
– Ok. Tchau.

Saí dali meio irritado.Ora essas, “um X-Tudão tem tudão”. Entrei num restaurante próximo e pedi um prato executivo.

Saciada a fome, confesso, agora acho graça do episódio. Vou considerá-lo uma espécie de chistosa penalidade imposta a minha Gula. De todo modo, aquele ambulante perdeu este cliente, que ele nunca teve.

X-Tudão!

Read Full Post »

á pouco, deixei uma bermuda lá na costureira. Havia rasgado, mas como é quase nova, nada como um pequeno reparo. Preferi isto no lugar de comprar outra. Todos hão de concordar, em tempos de crise, qualquer economia nos cai muito bem. Enfim…

Lá no ateliê, mostrei a peça para a costureira. Ela a olhou meticulosamente. Revirou-a toda. Deve ser competente, pensei. Depois, pegou um papel e começou a anotar algumas informações. Meu nome, telefone, tipo de serviço, quando estará pronto, quanto custará, etc. No tipo de roupa, por evidente, escreveu “bermuda”. Então, mistério dos mistérios, ela me fita sisudamente e me pergunta:

– Senhor, qual é a cor de sua bermuda?
– Hã?
– A cor, ué! Qual a cor de sua roupa?

Hesitei um pouco sem entender direito a coisa. Ora bolas. Ela não estava vendo a bermuda? Por que então não escrevia logo a cor? Confesso, complicou-me ainda o fato que tenho uma certa dificuldade com tons intermediários de cores. Por exemplo, defino bem o amarelo, o verde e o azul. Contudo, o “entre cores”… ô dificuldade… mas isto é outra estória. O diálogo seguiu:

– Senhora, não sei bem que cor é esta. Não é preta, mas também está longe de ser cinza.
– E então?
– Parece até um verde bem escurão. Você pode me dizer que cor é essa?
– Não.
– Não?
– Não.
– Mas, por que não?
– Senhor, é o cliente que TEM que declarar a cor da própria roupa…

Nova confissão: quase caí na gargalhada. Porém, segurei o meu maxilar (literalmente) e me contive. Como eu não havia pensado nisto antes? A coisa é óbvia, indubitável. Claro! O cliente ou a cliente! Ninguém senão estes é que têm que declarar a cor da própria roupa! Sério!

Respirei fundo e olhei para minha bermuda. Pensei em dizer “carmesim” para costureira, mas achei melhor não. Vivemos tempos estranhamente conturbados. Qualquer piada, por mais inocente que seja, pode ser tomada como ofensa. Sejamos então adequados à situação. Politicamente corretos e respeitosos. Assim, logo depois, bem circunspecto, finalmente respondi a aquela profissional, indiscutivelmente muito competente:

– Humm… Cinza. Minha bermuda é da cor cinza. Melhor, escreve aí: cinza escuro.
– Perfeito, senhor. Tome aqui a notinha. Obrigado.
– De nada.

Saí do ateliê. Ao longo do caminho, meditei um pouco sobre a seriedade desta questão. Da cor de minha bermuda e da estranheza deste mundão em que vivemos. De repente, uma dúvida brotou em minha mente. “Cinza escuro”? Que tipo de resposta é essa? Certamente há algum termo melhor – muito melhor – para definir esta cor. Qual será? Pensei um pouco a respeito, porém, já o disse, possuo certa dificuldade com cores intermediárias. Não encontrei o tal termo.

Já em casa, entretanto, obsessivo que sou quando desconheço certos assuntos, busquei me ilustrar. Procurei online uma paleta de cores e achei o que procurava. Destarte, da próxima vez que me perguntarem a cor daquela minha bermuda, empinarei discretamente o nariz e direi:

– Grafite.

Read Full Post »

(obs.: texto originalmente escrito em 28/02/2016)

letra_foi agora, há pouco, nesta última 3ª-feira gorda. Concordei em levar Alice a um baile de Carnaval infantil. Estávamos longe da folia, é certo. Contudo, pareceu-me uma boa ideia levá-la ao festejo. Conforme dita o bom discurso, comportado e correto, sei que a vida social é importante às crianças. Então – por que não? -, um bailinho é uma das formas pelas quais o mundo vai sendo apresentado àos párvulos.

Assim, com a criança devidamente paramentada, partimos ao baile. Ela estava felicíssima com sua vestimenta de bruxinha. Chegamos ao local e compramos os ingressos. O clube que promovia o evento era bom. O baile estava animado. Muitos ali se divertiam de verdade. Uma coisa honesta, de fato. Em meio ao pessoal, desfilavam alguns personagens do rico mundo das crianças. Ao chegarmos, o som de um pagodão qualquer inundava o ar. Um pouco depois, algumas músicas infantis seriam tocadas. Vez por outra apareceria um samba-enredo daqueles bem tradicionais. Troço legal. Noutras vezes, novamente outro pagode encontraria seu espaço naquele ambiente. Paciência…

Todavia, o ponto que destaco aqui é: assim que chegamos, repentinamente Alice pareceu estranhamente constrangida. Parou de falar, franziu a testinha e desse modo ficou. Não sei exatamente por que. Não sei se foi o tal pagodão, se foram os personagens ou o calor que fazia. Só sei que de repente ela “descurtiu” a coisa. Tentamos distraí-la mas nada mudava. Por fim, após brevíssimos cinco minutos no local, Alice se vira para a mãe e diz, resoluta:

– Mamãe, me tira daqui.

Insistimos mais um pouco. Não adiantou. Cerca de trinta minutos depois, fomos embora.

Ficamos frustrados, certamente. Afinal, não conseguimos fazer com que nossa filha se divertisse. Sim, havia também os ingressos. Um gasto a mais e sem o devido retorno. Enfim, fomos mesmo embora. Logo depois de sairmos do baile, o bom humor de Alice havia voltado. Fomos a uma feirinha, comemos crepe e voltamos à casa.

Por certo, não esqueceremos aquela 3ª-feira gorda. Contudo, confissão óbvia, não disfarço a pontinha de orgulho ao saber que minha filha detestou aquele evento carnavalesco.

serpentinas

Read Full Post »

scribatus_letra_Alice tem um boneco Stormtrooper que ela adora. É seu companheiro em várias brincadeiras. Nestas, sempre há vários tiros dados por ele. Coisa óbvia em se tratando de Stormtroopers. Pois bem, estava eu numa dessas brincadeiras, enquanto os tais “tiros” eram dados a toda hora. A ação era frenética. Havia muita tensão nela. De repente, o boneco apontou a arma para mim. Então Alice tratou de me alertar:

– Cuidado, papai, o stromtrûpir que atirar em você!!!
– Socorro! Disse eu. Alguém me ajude!

Logo depois, ao me ver “sinceramente” preocupado e com medo, ela se comoveu com a cena. Olhou para os lados. Chamou-me mais para perto dela, indo direto a meu ouvido. Assim, confidenciou-me, bem baixinho, um grande segredo, dos mais sérios, e que somente ela sabia:

– Não se preocupe, papai, ele não atira muito bem, tá bom?

Agradeci a confidência e a brincadeira seguiu, frenética como sempre.

Por último, uma informação para tranquilizar os que por aqui pousaram seus os olhos: estou bem e não fui atingido pelo Stormtrooper. E que a força esteja com todos.

Bom dia!

Ele não atira muito bem...

Read Full Post »

scritabus_letra_Nesta última 6ª-feira precisei percorrer alguns bairros cariocas. Fora um para-brisa estilhaçado que me o obrigou. Necessitava trocá-lo. Custou-me a tarde inteira para consertá-lo. Tudo bem. Aproveitei o meu pequeno périplo para observar os transeuntes. Mais especificamente, seus trajes. Queria encontrar camisas vermelhas.

Ocorre o seguinte. Na última quinta-feira, o ex-Presidente Lula fez uso da palavra. Certo é que alguns continuam a admirá-lo, embora bem menos o tenham aplaudido. Os que lhe ouviram o saberão: nosso ex-Presidente clamou pelo uso da vestimenta rubra. Ele disse algo como “a militância tem que andar de camisa vermelha”. Assim, lá estava eu, na tarde do dia seguinte, a observar a incidência da coisa.

Surpreendi-me com o que encontrei. Melhor dizendo, com o que não encontrei. Não vi viva alma enrubescida pela roupa. O apelo de Lula não funcionou. Não quero afirmar nada ofensivo, logo digo. Contudo, conclui ter sido o rubor moral de boa parte daquela militância o responsável pelo sumiço das camisas vermelhas.

Registro seja feito, encontrei alguém trajando uma camisa vermelha. Era um senhor, de certa idade. Por óbvio, tratava-se dalgum sujeito de extrema resignação. Não consegui evitar encará-lo. Ao perceber meu espanto, ele sorriu. Depois, pegou o escudo da camisa e o beijou. Entendi perfeitamente o recado. Era como se ele me dissesse: sim, é isso. Sou carioca e sou América, sim senhor. Com muito orgulho, com muito amor.

Então, apenas direi: salve, salve, manto americano!

0002050133159_img1

Read Full Post »

letra_Este caminheiro que aí se apresenta possui uma missão. Ela é árdua, difícil. Possivelmente, suas consequências, uma vez não satisfeita a urgente demanda, podem ser cruéis. Empreendido numa busca, ele almeja algo encontrar. O quê? Deixo-vos algumas opções, sendo uma apenas a correta:

A) Ele quer encontrar a verdade, uma nova luz à humanidade;
B) Anseia, tal qual Diógenes, o Cínico, achar o humano ideal, assim como definido por Platão;
C) Aceso o candeeiro, fazer as vias do Eremita, a inspirar a criatura humana;
D) Quer apenas, desesperadamente, encontrar a tarraxinha do brinquinho de sua filhinha… e haja diminutivos…

lanterna

Read Full Post »

scribatus_letra_Então alguém é servidor público. Dada à crise ou graças a outros percalços, subitamente, a pessoa se vê em apuros financeiros. A respeito de tal, o Estado brasileiro, demonstrando toda sua generosidade, tem a solução para seu problema: um belo serviço de gestão de crédito consignado, destinado *apenas* para funcionários públicos. Tudo ótimo. Ótimo? Talvez não.

Em pano rápido, descobriu-se que a empresa contratada pelo próprio governo brasileiro para operar tecnicamente o serviço cobrava mais do que deveria pelo crédito. Como? Sim, isso mesmo: cobrava mais do que deveria. Mas, por quê? Resposta: arrecadamento de propina. Cerca de 70% deste “faturamento extra” se destinava ao então partido governista e a alguns políticos. Segundo a Polícia Federal, de 2009 a 2015 aproximadamente R$ 100 milhões foram tirados indevidamente daqueles que recorreram à generosidade estatal.

Ainda conforme a PF, dezenas de milhares de funcionários públicos foram roubados pelo esquema. Noutras palavras, sem o saberem, estes funcionários financiaram parte da engrenagem da corrupção brasileira. O que dizer a respeito?

Ultimamente, a palavra “golpe” tem sido usada com certa frequência. Pois é, tem sido usada, um tanto que indevidamente. Entretanto, e aqui quase todos concordarão, isto aí foi um autêntico golpe dado nos servidores públicos.

Um golpe de doer.

Golpe

Read Full Post »

Older Posts »