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Archive for the ‘Generalidades’ Category

enho ouvido alguns críticos (literários, políticos e sociais) citarem o analfabetismo funcional como algo que atualmente marca boa parte dos brasileiros. Segundo estes críticos, após décadas de uma estratégia pedagógica rotundamente equivocada, o resultado é que grande parte da população de nosso país se tornou simplesmente incapaz de entender um texto, por mais simples que seja.

Dito isto, num grupo que participo, alguém anunciou algo à venda, falando basicamente o seguinte: “vendo rack, R$ 150,00; não entrego, favor retirar no bairro São Cristóvão”. Pois bem, imediatamente, vários interessados começaram a falar. A grande maioria deles fazia perguntas como:

– Quanto custa?
– Onde vc mora?
– Vc entrega?

Enfim, este é somente um pequeno exemplo. Contudo, sei que afirmá-lo é triste, mas aqueles críticos têm razão.

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proveitei que estava caminhando bem cedo e fui à farmácia. Precisava de um spray tipo “analgésico milagroso”. Explico: por conta de uma recente mudança, carreguei bastantes caixas. Caixas pesadas, de livros. Muito pesadas mesmo. Desde então, literalmente, estou com dor de cotovelo. Dor no cotovelo, melhor dizendo.

Não tenho paciência para com farmácias. Ou seja, entrei na primeira que vi. Dirigi-me ao balcão e fui atendido muito cordialmente pela senhora balconista. Era de fato uma senhora, bem senhora. Expliquei-lhe minha necessidade. Aquela senhora riu. Um riso de profunda comiseração, quase materno. Achei-a bem simpática e receptiva. Normalmente, sou meio seco com atendentes. Principalmente com aqueles falsamente simpáticos. Destes que sempre tentam lhe empurrar algo. Contudo, aquela senhora, ao mesmo tempo jovial e bastante anosa, havia me cativado. Senti-me incentivado a lhe falar um pouco mais. Ela me parece uma vendedora muito eficiente, cordial e sincera, na hora pensei. Assim, falei-lhe rapidamente da mudança. Das caixas pesadas. De meu cuidado com os livros, etc. Ela continuava rindo. Aquele mesmo sorriso de compaixão e afeto. Depois, muito confiantemente, pedi-lhe o tal spray miraculoso. Antes dela me responder, ainda tive tempo de soltar o famoso bordão “se tiver genérico, melhor”. Ela continuava rindo. Mesmo quando me informou que infelizmente não tinha aquele prodigioso spray. Frustrei-me. De súbito, até me pareceu que meu cotovelo voltara a doer. Ela viu minha frustação. Riu um pouco mais. Minha mão estava sobre o balcão. Logo, ela pousou sua mão sobre meu pulso. Apertou-o, suavemente. Novamente, algo quase maternal, como que a me confortar. Em seguida, na maior das calmas, disse-me:

– Senhor, isso aqui é uma Pet Shop. A farmácia fica bem aqui ao lado.

Dois segundos de hesitação minha e comecei a rir. Ri, meio que discretamente, é verdade, mas ri. A senhora riu também. Desculpei-me e saí da loja. Confesso, foi alentador ainda escutá-la falar que eu não me preocupasse, pois aquilo sempre acontecia ali. Ok.

Entrei na farmácia. Aquela que fica ao lado da Pet  Shop. Minha honestidade me obriga a dizer: para me certificar de estar no lugar certo, li três vezes a palavra “farmácia” antes de nela me adentrar. Pedi o remédio. Peguei e paguei a coisa. Voltei à casa.

O cotovelo passa bem.

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ntrei no elevador e por mero lapso não lhe apertei o térreo imediatamente. A porta se fecha e o troço resolve subir. Raios, pensei, até que ele chegou ao 12º andar. Alguém abre a porta e entra. Bom dia, a pessoa me diz. Respondo, bom dia. Começamos a descer. Então, a criatura ali desanda a me falar. Resumidamente, foi algo como:

– Pois é. Veja só esta greve. Dos caminhões, sabe? Um absurdo. Mas eles têm direito. Fazer o que? As pessoas estão meio doidas, você não acha? São as redes sociais. É cada coisa. E as fake News? A culpa é dos militares. Deviam agir. Mas acho melhor não. No meu tempo a coisa ficou preta da silva. A gente corria e apanhava dos milicos. Mas a época nem se compara com a de hoje. Hoje é muito pior. Mas naquela época também era ruim. Mas era melhor. Acho que eles deviam agir, ou não? Nem sei mais. Sei que depois veio o Sarney e a coisa ficou ainda pior. Votei no Lula, mas ele perdeu. Piorou tudo. Votei no FHC e ele ganhou. Legal. Depois votei no Lula de novo e ele ganhou. As coisas melhoraram, mas a que custo né? Agora todo mundo sabe. Cretino. Aí veio a anta. Nem quero falar nada. Nem me lembro se votei nela. Paulo Freire tem razão. Como é mesmo que ele falava? Ah, deixa prá lá. Tenho formação em pedagogia. E agora tem a copa. Será que o Brasil vencerá? Ih, tenho que procurar um posto. Estou sem gasolina. Será que encontro um? Um absurdo esta greve. A dos caminhões. Veja só a que ponto chegamos. As redes sociais são um problema. As fake news…

Chegamos ao térreo. Doze longos andares, mais o play e as garagens. Viagem quase interminável. Novamente, porta do elevador aberta e um mútuo bom dia. Segui com minha vida. Aquela criatura seguiu com a dela. Benedicat te Omnipotens!

Concluindo, concordo: as pessoas estão mesmo meio doidas.

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á pouco, faltou energia por aqui. A região inteira ficou às escuras. Por óbvio, estava com várias luzes acessas. Também, vários equipamentos ligados. De súbito, tudo escuro, tudo desligado. A filha avisa em sonora voz “faltou luz, pápi!”. Ok, tenho que agir. Contudo, o que fazer? Penso, e rápido. Tenho uma lanterninha tipo “led”. Ela é pequena e potente. Direi melhor: ela é bem pequena e muito potente. Às escuras, procurei-a. Depois de sete ou oito minutos, achei-a. A coisinha se ocultara em meio a papéis. Demorou, todavia, encontrei-a. Finalmente. Reestabelecerei a ordem, pensei de novo. Respirei com alívio. Pode uma reles lanterna ser um bálsamo. Aquela, de fato, era. Afinal, baniria a escuridão daquele momento. O negrume se desvanecerá. Avisei à criança que a luz voltaria agora. “Deixa comigo, filha”. Foi minha despretensiosa fala. Finalmente, acionaria o pequeno lumaréu. Confiante, liguei a lanterna. No exato momento – estranha tautocronia – todas as luzes da casa acenderam. Os equipamentos religaram. De fato, a ordem fora reestabelecida. Olhei à lanterninha, surpreso. Novamente, pensei: sim, bem pequena e muito potente. Que inusual coincidência. Ligar a lanterna e a energia da região voltar! Uma curiosa concomitância de eventos mutuamente não relacionados. Ri. A sincronia me pareceu uma zombaria. Uma espécie de pilhéria vinda dos Deuses. Deuses, nos quais, não acredito. Enfim, ouvi minha filha dizer “boa, papai!”. Então, tudo fez sentido. Ok, deixe estar assim. Grato, Providência. Faça-se luz e noite que segue.

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ez por outra acontece comigo. Aprender uma palavra nova. Adoro quando isto ocorre. Casualmente, hoje li “ultracrepidário”. Logo pensei, ultra o que? Por óbvio, procurei-a pelos dicionários. Achei-a e ela é fascinante. Depois, logo conclui algo: caso alguém me perguntasse como eu definiria o Facebook, eu lhe sugeriria um sinônimo. Assim, cunharia o macabro termo “ultracrepidariolândia”.

Explico. Um ultracrepidário, uma ultracrepidária, é a pessoa que fala e emite opiniões a respeito de um assunto desconhecido por ela mesma. O Facebook é cheio de gente assim. Daí minha sugestão. A terra dos ultracrepidários ou ultracrepidariolândia. Simples assim.

Agora, você quer uma imagem para este tipo de pessoa? Que opina demais sem o devido conhecimento do assunto? Bem, aí ficará muito mais fácil e nem precisaremos de dicionário. Ei-la aqui ilustrando estas breves linhas.

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ois é, diletas místicas e diletos místicos, preclaras filósofas e preclaros filósofos. Esqueçam tudo que aprenderam sobre o que vem a ser um corpo metafísico.

Ocorre que, por conta de um infausto tropeço meu num link equivocado e canhestro, li há pouco que uma certa moça, a respeito de quem nunca ouvi falar, tem se esforçado para cultivar o que a matéria chama de “corpo metafísico”. Em suma, para lograr este fito, basta à jovem se empenhar numa estoica dieta a base de sucos verdes, ovos e peixe.

Confesso que o esforço da tal subcelebridade provocou um “heim?” em minha mente. Isto porque ela, minta imatura mente, em se tratando de cousas metafísicas, pensava de modo diferente. Sim, falando pelo mínimo, eu achava que deveria me dedicar mais aos aristotélicos, e também dar mais atenção a Plotino e suas três hipóstases, bem como mergulhar fundo nas categorias ontológicas. Talvez assim, afortunadamente, conseguisse me aproximar daquilo que escapa a meus sentidos, algo que supostamente está além do físico, acolá da natureza, depois do conhecido, etc.

Enfim, ledo engano meu. Nada disto agora parece necessário. No lugar de se aventurar naquelas paragens insólitas, a quem quiser conhecer algo digno da alcunha “metafísica”, bastará sorver uma beberagem verdolenga, além de comer omelete e sashimi.

Vida que segue ou, pelo menos, que tenta seguir.

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Catete é um curioso bairro carioca. Aqui se encontra de tudo. Desde a fina flor do bom gosto até certas bizarrices deprimentes, há tudo pela região. Há pela área também muitas almas a respeito das quais eu diria, meio claudicante, que são peculiares.

Dito isso, hoje pela manhã acordei com uma dessas peculiaridades. Um sujeito de voz forte e grave, quase um baixo profundo, cantando aos berros perto de minha janela. Afortunadamente e com as benesses das deusas e dos deuses, logo devo registrar e avisar, ele não cantava para mim. O mundo, este sim, era seu infeliz alvo. A canção – chamá-la-ei de canção, por misericórdia – era bem melancólica. Quanto a letra, incompreensível. Na hora pensei, meio que de forma lacônica: glossolalia a essa hora da manhã? Todavia, não se tratava deste notável fenômeno. Era outra coisa de explicação mais humana. Na verdade, era apenas muito álcool nas ideias. Tratava-se dum ébrio muito ébrio a cantar para o mundo algum tipo de dor. Coitado. Parado em frente a sua fonte, um depósito de bebidas, ele cantava todo seu pesar. Compadeci-me do sujeito. O que teria ele passado para cantar daquele modo? O que a vida lhe teria reservado para tamanha lamentação? Não sei. Só sei que, então, de súbito, ele parou. Felizmente deve ter se cansado e foi dormir, pensei. Ledo engano meu. Ao espiar pela janela, vi que estava se abastecendo novamente naquele depósito de bebida. Minutos depois, a cantoria seria reiniciada. Novamente, a mesma canção, a mesma dor, o mesmo pesar. Apenas a voz parecia surpreendentemente revitalizada. Certamente, algo decorrente de novos e muitos goles de uma braba manguaça qualquer.

Trôpego e cantante, ele seguiu até se escorar num poste. Era um ponto de ônibus. A seu sinal, ali parou o coletivo. Nele o ébrio muito ébrio entrou, ainda cantando a plenos pulmões. Assim, aquele sujeito seguiu viagem, sabe-se lá para onde.

Novamente, compadeci-me. Contudo, desta feita, compadeci-me dos demais passageiros daquele ônibus. Certamente, eles teriam nesta manhã uma longa viagem.

Enfim, coisas do Catete, um bastante curioso bairro carioca…

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