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Archive for the ‘Literatura’ Category

scribatus_letra_Aconteceu com Manoel, um pequeno e infeliz agricultor. Tinha vários problemas. Todos, pensava ele, causados pela grande prole da qual era responsável: Manoel tinha sete filhos. Havia tantos problemas e tanta preocupação que o agricultor simplesmente não sabia mais o que fazer. Estava desesperado.

Certo dia, Manoel escutou uma historinha a respeito de um sábio Guru, a morar naquela região. Angustiado, Manoel se obstinou a encontrá-lo o quanto antes. Procurou, procurou e procurou, até o encontrar em um mais que óbvio cume de montanha. Lá chegando, Manoel imediatamente se pôs a falar e a reclamar.

– Renomado Guru, minha vida está um inferno. Moro numa pequena casa, minha mulher não para de falar, meus sete filhos não param de comer e todos reclamam de mim. Trabalho 12 horas por dia, mas nem mesmo assim consigo produzir o suficiente para o sustento de minha família. Acho que tudo está errado. Até mesmo a minha vaquinha tem produzido pouco leite! Qual o conselho que o mestre tem para mim?

Impassível, o Guru pensou. Pensou, pensou e pensou. Três horas depois, falou:

– Ó, Mané. Ponha a vaca na sala.

Voltando a casa, Manoel pôs-se a seguir a indicação do sábio, mesmo sem ter a menor ideia do por que daquele inusitado conselho. Logo, a vaca estava na sala.

Cedo, a vida de Manoel pioraria bastante. Ainda mais desesperado do que antes, o infeliz agricultor voltou ao Guru e desabafou.

vaquinha– Estimado Guru, minha vida está um inferno. Minha pequena casa virou um caos de sujeira, minha mulher adoeceu e parou de falar, meus filhos adoeceram e pararam de comer. Nem reclamarem de mim eles conseguem mais! Eu também adoeci e não consigo trabalhar direito e até a minha vaquinha parou de dar leite. Desgraça! Está tudo errado. Qual o conselho que o mestre tem para mim?

Novamente impassível, o Guru pensou. Pensou, pensou e pensou. Três horas depois, falou:

– Ó, Mané. Tire a vaca na sala.

Manoel correu montanha abaixo. Em casa, tirou a vaca da sala, devolvendo-a ao pasto. Passados trinta dias, o agricultor voltava à montanha e outra vez se dirigiu ao sábio.

– Iluminado Guru. Agradeço seus conselhos. Minha vida está ótima. Minha mulher e meus filhos recuperaram a saúde. Voltei a trabalhar normalmente e até mesmo e minha vaquinha de novo está produzindo o leite que consumimos. Muito obrigado!

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Obs.: lembrei-me desta pequena fábula ao remexer nalguns de meus registros antigos. Ela me foi contada em São Lourenço/MG pelo amigo e mestre José de Jesus Seixas Patriani, já falecido (1994?). “Você pode até considerá-la simplória” – disse-me, então – “mas tenho certeza que você encontrará pessoas que precisarão escutar esta história pelo menos uma vez na vida. Há muitos reclamões nesse mundão de Deus, meu filho”.
Que os bons lumes estejam a cuidar do espírito do Profº Seixas.

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Há certos “iniciados” que costumam fechar seus ouvidos e consciência à voz daqueles que, mesmo estando no início da jornada, têm algo a lhes comunicar. Não raro é vermos tais iniciados se defenderem e fugirem da argumentação inteligente dizendo algo próximo a “tenho 3 décadas de experiência”. Esta bobagem – relativamente e infelizmente comum no meio esotérico – me faz lembrar uma historieta que escrevi em 1996. Repasso-a novamente para cá. Ela está exatamente como foi publicada, na Primavera daquele ano. Preferi editá-la deste modo, sem revisão, inclusive mantendo os pequenos erros de português que ela contém. Desculpem-me qualquer aparente falta de cuidado, mas é que preferi não alterá-la, em absolutamente NADA.

Assim, ela aqui vai in naturalibus, dedicada aos Irmãos e Irmãs os quais, por descuido ou prepotência, de tanto pensar que têm bastante experiência após décadas no caminho, encontram-se afastados da verdadeira senda Iniciática, da senda do aprendizado e, principalmente do bom senso e da moderação.

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scribatus_letra_Conta uma antiga lenda Sufi que dois dervixes, um já ancião e o outro bem mais jovem, se encontraram por acaso em uma das várias estradas que davam acesso a uma pequena cidade, próxima da região onde eles moravam, na Turquia.

O mais velho dos dois dervixes ostentava uma suntuosa e longuíssima barba, cultivada ao longo de mais de trinta anos de aferrada, insistente e teimosa peregrinação na via do Conhecimento e da Busca de Deus. Perguntado pelo mais novo sobre as razões de se manter uma barba tão comprida e incômoda, respondeu irritado que ela representava todas as suas provações sendo ela a única fiel testemunha de seus feitos e convicções, companheira das conquistas e símbolo de sua sabedoria.

“Ó ancião, não me consta haver relação alguma entre uma barba, por maior que seja, e a sabedoria!”, retorquiu surpreso o descuidado jovem dervixe.

“Você é novo e nada sabe, é melhor calar-se e me acompanhar, se quiser aprender alguma coisa!”, esbravejou com arrogância o ancião barbudo.

Nada restando que pudesse ser dito, o jovem dervixe, então, resignou-se em silêncio e decidiu, por fim, acompanhar o outro.

orientale_long_beardLogo encontraram um caudaloso rio cruzando o atalho que os conduzia à pequena cidade. Como não havia pontes nem qualquer alternativa puseram-se a atravessá-lo a nado. Assim, o ancião pôs-se rapidamente a nadar em direção a outra margem, sendo seguido de perto pelo jovem dervixe que o acompanhava. Porém, a força das águas logo cansaria o mais velho que, sob o efeito do peso de sua grande barba encharcada, começava a se afogar. Imediatamente o jovem dervixe sacou uma navalha e ofereceu-a ao ancião, para que esse se livrasse da enorme barba. Foi quando o ancião, com insana veemência e ira, a recusou, dizendo: “jamais, ó infiel! Ela é a prova de minhas conquistas…”

E, desta forma, o velho dervixe, sucumbindo ao peso de sua enorme barba, foi arrastado pela forte correnteza e se afogou.

Quando chegou a outra margem, o atordoado jovem dervixe encontrou um mullá calmamente sentado. O tranqüilo Sábio, que, impassível, assistira toda a cena, disse então: “Não te aflijas, ó jovem aprendiz, mas sabe que a ti foi conferida uma nobre honra!”.

“Como? não entendo o que queres proferir, ó mullá.” Disse ainda meio que sem fôlego o jovem dervixe.

“Regozija-te, ó tu que és novo na Senda da Iluminação!” – continuou o Sábio – “pois viste o exemplo vivo de como A Busca de Deus é tolamente trocada pelas conquistas do caminho.”

“O homem, tal como o bode, não deve se envergonhar de sua própria barba; mas também não deve ter receio, nem acanho, em tirá-la, pois se ela indica beleza, não é a Beleza, assim como as conquistas do Caminho da Busca de Deus, não são Deus.”

“Da mesma forma, as convicções não indicam sabedoria, porquanto o saber está em acompanhar o ritmo dos tempos mesmo que para isso tenhamos que nos desfazer do excessivo peso das nossas próprias certezas, ainda que estas acumulem mais de três décadas…”

“Quando aquele infeliz dervixe recusou-se a cortar a própria barba, dando mais importância às suas posses do que a vida, que é a Busca de Deus, ele recusou a lição das águas, a lição do passar dos tempos, e pereceu ante a tola ilusão de sua própria grandeza.”

“Pois não importa a posse, mas sim o sentido e a atitude do homem perante as conquistas; e, da mesma forma pela qual muda a posição das estrelas conforme a variação das estações, nunca haverá doutrina ou convicção pessoal que resista a variação da vida em sua eterna ânsia de constante mudança!”

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Fonte da Imagem: “Orientale with a long beard”, by Schongauer Martin.

PS.: o pequeno conto é livremente inspirado pelo “A Linguagem dos Pássaros”, de Farid ud-Din Attar.

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scritabus_letra_Neste início de Primavera, como nada me ocorre para falar, aproveito para responder a pergunta provocada pelo meu post “Ignorantes, afortunadamente ignorantes…“, sobre qual era a historinha dos ciclopes que eu escrevi. Aqui ela segue, na forma como foi escrita, inteiramente baseada no filme Krull.

Para quem quiser algo técnico sobre os Ciclopes, a imagem usada mais abaixo foi retirada de um site sobre mitologia, que poderá ser visto aqui.

A Lenda dos Ciclopes
por Carlos Raposo

Há muito, contava-se que os Ciclopes eram seres alegres e felizes. Naquela época, eles possuíam os dois olhos, como todos os outros seres da região em que viviam.

Movidos por sua natureza investigativa, diz-se que os Ciclopes saíram em sua busca do conhecimento e da sabedoria maior. Assim, durante a jornada repleta de acontecimentos e aventuras, após muito procurarem, eles se depararam com um Grande Mestre, o Senhor dos Mundos Obscuros.

Os Ciclopes, então, contaram ao Mestre os seus anseios e perguntaram se este poderia, de alguma forma, ajudá-los. O Mestre, agindo de acordo com sua sinistra natureza, declarou possuir tal saber, o conhecimento dos conhecimentos, o maior dos segredos entre todos os segredos. “E este segredo será de vós. Tudo porém tem um preço!”, disse com majestade o temível Grande Senhor dos Mundos Obscuros.

Entusiasmados diante da real possibilidade de conseguirem o tão almejado segredo, os Ciclopes, se declararam dispostos a pagar o preço necessário, fosse qual fosse seu valor, para finalmente terem a posse do cobiçado conhecimento. Nenhum esforço seria medido por eles para pagar o preço devido.

O Senhor dos Mundos Obscuros, então, propôs trocar o grande segredo por um olho dos Ciclopes.

A barganha foi feita e o logro obtido.

ciclopeOs Ciclopes, assim, com um só olho, e de posse do Supremo Conhecimento, logo retornariam da longa jornada, à região de origem deles.

Os outros habitantes daquela região logo notaram o diferente aspecto dos gigantes. Porém, o que mais se fazia perceber naquelas colossais criaturas não eram os novos e estranhos traços das suas faces, mas sim a terrível mudança do estado de espírito deles. Onde antes estavam a alegria e a felicidade, agora habitam a tristeza e a sisudez.

Os demais moradores da região dos Ciclopes, acostumados com a habitual cortesia daqueles soberbos seres, não entendiam os motivos da drástica mudança de atitude. “O que terá acontecido a eles?” perguntavam atônitos entre si. Até que um dos gigantes, disse como fora a jornada em busca do conhecimento. Contou a respeito do anseio de sua raça pelo saber e pelo Sumo Conhecimento. Falou como eles decidiram partir na demanda de suas altas aspirações e também como ocorreu o fatídico encontro com o Grande Mestre. Narrou como se sucedeu a barganha que lhes fora proposto pelo terrível Mestre dos Mundos Abissais e, finalmente, sobre o tão desejado Saber, o Conhecimento que afinal lhes fora entregue: “o maior dos segredos, entre todos os segredos”, disse de forma tristonha e melancólica o imenso Ciclope.

Foi quando alguém, dentre aqueles que escutavam o gigante, perguntou: “mas porque agora, ó colossal criatura, andais triste como o crepúsculo, porque agora os dias e as noites não têm mais importância para ti e por qual motivo a própria vida já não exerce encanto sobre todos da tua nobre raça, e justamente agora que vós possuís tão precioso saber?”

Ao que respondeu o Ciclope que o Saber que lhes fora conferido, era muito especial mas também deveras cruel; o maior dos segredos, entre todos os segredos; tão terrível quanto o seu Guardião, o Mestre dos Mundos Obscuros. Este era o Único Saber, e este consistia apenas do conhecimento preciso e completo de como e quando ocorreria a própria morte. A nobre raça dos Ciclopes agora estava condenada a nascer já perfeitamente ciente de como e quando se daria a própria morte. Desta feita, nada mais importava para aquelas grandes criaturas da região. Nada mais tinha importância. Por isso a tristeza e a melancolia agora seriam suas únicas e eternas companheiras.

O fardo era demais. E se fosse permitido a eles apenas mais um desejo, todos, sem exceção, escolheriam algo muito simples: ignorância…

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por Carlos Raposo

APRESENTAÇÃO:

letra_Mitos que envolvem a realização dos mais altos anseios religiosos estão continuamente presentes em histórias e lendas. Os elementos que compõem esses mitos normalmente aparecem na forma de heróis fantásticos, viagens por enigmáticos mundos desconhecidos, longa jornada de aprendizado, dificuldades, perseguições, enfim, todo um aparato de símbolos e ideais dispostos de modo grave, cuja proposição visa causar um certo impacto e o necessário trauma em nossa consciência.

Isso parece ser necessário para que, ao final, possamos realizar os aspectos internos a tudo aquilo exposto e prometido através das fábulas e das aventuras. Os mitos – e mesmo aqueles equivocadamente tomados como factuais verdades(1) –  podem ser entendidos como possuidores de um propósito único, qual seja, através de um drama, expor certos mistérios que promoverão uma alteração no estado mental do observador, dando condições para que se processe algum tipo de crescimento na humanidade como um todo, aprimorando sua consciência e, assim, galgar uma possível melhoria deste mundo em que vivemos.(2)

Visto isso, passemos agora a uma pequena investigação, de cunho parcialmente histórico e filosófico, sobre uma das aventuras que mais chamam a atenção dos assim chamados Estudantes dos Mistérios.

Rosacruz

Rosacruz

A palavra chave da aventura que agora apresentamos é Rosacruz.

Dita de modo solto, ou mesmo indiferente, essa palavra simples tem o poder de despertar abrasadoras paixões e intensos sonhos. Tal é a carga histórica, mística e filosófica que o termo Rosacruz carrega, que não raro é encontrar aqueles que nele depositam as tendências de tudo o que hoje em dia se convencionou chamar de oculto ou “esotérico”.

Porém, qual a ancestral origem do termo? Seria o insondável continente Atlante? E seu verdadeiro significado? O que significa ser um Rosacruz? Terão os Rosacruzes todos os poderes e as faculdades divinas a eles atribuídas?

Certamente, responder taxativamente a todas esses questões com um entusiasta “Sim!” seria a pretensão maior de qualquer ensaio com tendência sensacionalista ou, no mínimo, com queda pelo extravagante. Entretanto, pensamos ser mais útil ao espírito humano, ao conhecimento e ao bom senso, fazer uma rápida investigação histórica e tentar nos acercarmos daquilo que de mais concreto existe sobre o mito rosacruciano. Deste modo poderemos entender tanto sua origem quanto as hipóteses que serviram de argumento para o advento do movimento Rosacruz.

Acreditamos que esse será um bom modo de nos aproximarmos da compreensão da fantástica Aventura Rosacruz, pois não só possibilitará rechaçar os bem conhecidos apelos e excentricidades que o vocábulo atualmente sugere, como também porque permitirá não esquecer que, oculta em sua própria expressão, a Rosacruz – isso é fácil de se admitir – ao escapar da própria história que a sustenta, pode ter se transformado em um misterioso símbolo, cujo real significado, parece mesmo pertencer a cada um de nós.(3)

ORIGENS:

A primeira dificuldade que o termo Rosacruz traz está relacionada com o montante de material para pesquisa. Ele é vastíssimo. Contudo, tanto para o horror do pesquisador com moderado senso crítico quanto para o delirante deleite das mentes menos afortunadas, esse material, como enfaticamente afirmado por Yates,(4) é imprestável em sua grande maioria.

Todavia, se a primeira dificuldade está justamente na qualidade do material para pesquisa, seguramente um dos pontos mais polêmicos do estudo dessa matéria, diz respeito à origem da Rosacruz.

Alguns são enfáticos na fantástica afirmação de que ela tem suas raízes no antigo Egito por volta de 1500 a.C., na XVIIIª Dinastia, na época de Thutmosis III, considerado um dos maiores faraós de toda a história egípcia. Segundo esses mesmos autores, algumas décadas depois, Amenofis (ou Amenhotep IV), também conhecido por Akhenaton, teria sido iniciado nos mistérios da irmandade esotérica organizada por seu predecessor, Thutmosis III. O então iluminado Akhenaton, inspirado pelos novos ensinamentos e mistérios, adotaria o regime monoteísta de religião, com seu culto ao Deus único Aton, dando início a um novo áureo tempo à civilização egípcia. Certos autores vão ainda além, afirmando ou insinuando que o próprio faraó Akhenaton teria sido, nada mais nada menos, que o fundador da Rosacruz.(5)

Akhenaton

Akhenaton

Muito embora existam os que considerem o faraó Akhenaton um iluminado, a história não é lá muito cortês com sua pessoa. Alguns historiadores apenas o citam como tendo sido um militar totalmente fracassado, responsável pela ruína de parte de seu império;(6) outros o têm como um alienado, cujo delírio monoteísta o levou a viver “isolado enquanto o reino mais antigo do mundo ruía desgovernado, esquecido e muitas vezes revoltado”.(7)

Provavelmente a verdade sobre o desempenho de Akhenaton à frente do império egípcio esteja em algum ponto entre esses dois pólos, mas não caberia aqui essa investigação. Entretanto, tenham sido ou não grandes nomes para o antigo Egito, não existe sequer um confiável argumento histórico (seja na história oficial ou não) que comprove a fundação da Rosacruz por algum faraó, ou mesmo que ponha a origem dessa fraternidade nas terras banhadas pelo Nilo.

Contudo, não podemos deixar de dizer que, como indicado por tantos autores, parece existir um conhecimento perene e ancestral que acompanha o ser humano em sua escalada evolutiva. Sendo assim, é possível supor que este conhecimento, que foi preservado através dos tempos, dos templos e das civilizações, estivesse presente em nosso mais remoto ancestral e quiçá antes dele. Deste modo, não seria de todo absurdo supor que o sistema de pensamento e a filosofia rosacruciana fizessem parte de um todo maior, cujas raízes se fundem na antigüidade da própria tradição oculta ocidental.

Ao que tudo indica, a própria origem do termo rosacruz está no nome de um certo Cristian Rosenkreutz, personagem principal de uma das lendas mais notáveis que a imaginação do homem concebeu, que teria vivido nos séculos XIV e XV.

A despeito de qualquer origem fantástica que possamos atribuir à Rosacruz, atualmente existem duas hipóteses que a pesquisa indica como sendo as mais prováveis. Ambas têm raiz nos bem conhecidos “Manifestos Rosacruzes” lançados na Europa a partir da segunda década do Século XVII.

O primeiro desses três manifestos levava o título (abreviado) de Fama Fraternitatis,(8) aparecendo impresso por volta de 1614(9) em uma pequena cidade chamada Cassel, na Alemanha. O segundo manifesto, conhecido de modo genérico por Confessio, viria à luz no ano de 1615, simultaneamente em Cassel e Frankfurt. O terceiro e último manifesto, As Bodas Químicas de Cristian Rosenkreutz, foi levado a público em 1616, publicada em Estrasburgo.

Vale lembrar que, quando do aparecimento público desses três manifestos, a sua autoria não era conhecida. Apenas alguns anos depois – como veremos mais à seguir – é que apareceria um suposto autor para o terceiro dos manifestos, as Bodas.

Porém do que tratavam esses três documentos?

O primeiro deles, Fama, apresenta a vida do fundador da Fraternidade Rosacruz,(10) o monge Christian ou Cristian Rosenkreutz (por vezes citado como Irmão C.R.),(11) nascido na Alemanha em 1378, e sua viagem à terra sagrada. Durante a sua jornada, o Irmão C.R., após a morte de seu companheiro de senda, desvia-se de seu itinerário original e chega na Arábia, onde o então jovem monge passaria a receber misteriosas instruções secretas. De posse desse conhecimento, Rosenkreutz volta à Europa com o intuito de tornar público o seu novo saber. Após uma série de dificuldades, Rosenkreutz é rejeitado. Voltando para a Alemanha, ele é ajudado por quatro Irmãos na tradução do misterioso Livro “M”, cujo conhecimento deveria ser mantido em segredo até que a humanidade estivesse devidamente preparada para recebê-lo.

Assim, é criada a “Fraternidade Rosacruz”, com o intuito de manter o conhecimento daquele grupo de Iniciados.

A Fraternidade Rosacruz, segundo a concepção de seus primevos criadores, funcionaria tendo os seguintes seis preceitos e regras básicas, a serem estritamente observados:

• Estavam proibidos de exercer qualquer profissão, a exceção daquela que curaria os enfermos, e isso a título de caridade.
• Não deveriam usar trajes que os distinguissem da população local, como acontecia com o clero e com outras ordens religiosas, mas antes, deveriam passar como se fossem habitantes dos locais onde eles estivessem.
• Todos tinham a obrigação de estarem presentes em um dia previamente marcado, denominado de “Dia C”, na sede do Espírito Santo, onde todos os rosacruzes deveriam se reunir, anualmente. No caso de impossibilidade, explicar por escrito o motivo da ausência.
• Cada Irmão Rosacruz(12) deveria procurar e, no caso de encontrar, informar a existência de pelo menos uma pessoa de valor que pudesse sucedê-lo, quando necessário.
• As Letras CR seriam o selo maior de reconhecimento.
• A Confraria deveria permanecer oculta por pelo menos um século.(13)

Todos os Irmãos Rosacruzes daquela época juraram absoluta fidelidade a esses seis preceitos.

Em suma, além da jornada do Irmão C.R. e da organização da Fraternidade Rosacruz, o Fama expõe a situação do mundo naquela época, apresentando os propósitos da Fraternidade e, por fim, os objetivos a serem alcançados através do conhecimento obtido e ensinado primeiramente por Rosenkreutz.

John Dee

John Dee

Alguns anos mais tarde, aparece o segundo dos manifestos rosacruzes, o Confessio, que ao que tudo indica, parece ter como base o famoso escrito Mona Hyeroplyphica de John Dee,(14) o notável Astrólogo e Matemático Isabelino (ou Elizabethano).(15) A Confessio expõe em seus muitos capítulos a estrutura, as concepções intelectuais da Ordem e os princípios rosacruzes. Necessidades de reformas religiosas como, por exemplo, procurar ser totalmente independente do “império” papal, eram um dos pontos importantes desse opúsculo.

O terceiro documento Rosacruz era o maior entre todos estes até aqui apresentados. As Bodas Químicas de Cristian Rosenkreutz narrava, de forma alegórica e fantástica, o suposto casamento alquímico do fundador da Fraternidade, quando este já contava com oitenta e um anos de idade. Rosenkreutz, teria ficado durante sete dias inteiramente absorvido por um enlace místico repleto de visões, jornadas ritualísticas e representações enigmáticas.

Estes três pequenos livros foram o suficiente para causar um alarde sem igual em toda a Europa do século XVII e XVIII. A cada aparição de cada um destes documentos, a fértil imaginação seiscentista e setecentista era tomada de assalto por um crescente desejo comum de busca pela tão estimada, misteriosa e invisível fraternidade criada por Cristian Rosenkreutz. Porém, onde a encontrar?

Como resultado de toda euforia rosacruciana, vários foram aqueles que tentaram estabelecer contato com esses Iniciados. Como conseqüência imediata desta frenética busca, um grande número de obras foram editadas, sempre tendo como base os manifestos rosacruzes. Nomes como Michael Maier e Robert Fludd apareciam como admiradores das doutrinas rosacruzes. O próprio Maier, que na época já era uma figura de destaque em toda a Europa, se transformaria em um dos mais fervorosos defensores dos Rosacruzes. Durante esse período, uma série de organizações também teriam a sua vez, sendo criadas nos anos que se seguiram a publicação dos primeiros manifestos rosacrucianos.

O mito Rosacruz estava finalmente estabelecido.

 

A ROSACRUZ: FATO OU FANTASIA?

Após examinar o entusiástico conteúdo dos manifestos, é natural que muitas questões despontem na mente do estudante que se aventura na pesquisa do símbolo rosacruciano. Dessas tantas intrigantes questões, provavelmente, duas assumem o caráter decisivo no processo de interação dos fatos que os envolveram. Assim, todos perguntarão: quem, na verdade, é o responsável pela descrição da saga do Irmão C.R., e quem escreveu os três manifestos? E a Ordem Rosacruz em si, seria puramente uma alegoria, um mito, uma fantasia, ou seria de fato o fruto de uma incrível realidade mágica, que poderia estar ao alcance de qualquer um?

Para essas vitais questões sobre a realidade ou não do advento Rosacruz, nós provavelmente não teríamos nenhum indício de resposta, caso não fosse encontrado na autobiografia de Johann Valentin Andreae uma declaração, com ares de confissão, de que teria sido ele o autor das Bodas, escrita em 1605, bem antes de sua publicação, quando Andreae contava com apenas dezenove anos de idade.

Alguns pesquisadores e especuladores, tendo esse dado como única base concreta em todo o material de pesquisa, vão mais além, afirmando que o próprio Andreae, não só era o responsável pelo Bodas, mas também teria escrito tanto a Fama quanto a Confessio.

valentin_andreaCom esse novo personagem, uma outra questão desponta: quem foi Johann Valentin Andreae e qual o seu papel nessa história?

Andreae nasceu em 1586, no estado luterano de Württemberg. Sua família, tradicionalmente de origem católica, teria se convertido ao protestantismo, sendo que o seu avô, Jacob Andreae, fora um dos primeiros expoentes e pioneiro da reforma luterana, chegando a ser conhecido como “o Lutero de Württemberg”. Nascido em berço protestante, Andreae, através de seu pai, também logo tomaria conhecimento do simbolismo alquímico, matéria de enorme interesse para o meio erudito da época. Após a morte de seus pais, Andreae se estabelece em Tubinga.

Nessa época, na passagem do século XVI para o século XVII, a Europa, ainda agitada pelas conseqüências promovidas pela reforma luterana, vivia em meio a toda ansiedade provocada por um sem número de pequenos grupos independentes, os mais variados possíveis, que acalentavam sonhos reformistas a procura da sociedade ideal.

Normalmente, esses grupos eram formados por idealistas, filósofos e, de modo geral, por pessoas bem instruídas e inteligentes. Andreae veio a participar de um desses grupos, que ficou conhecido pelo nome de Círculo de Tubinga.

Este Círculo teria fundamental importância na formação dos ideais do jovem Andreae, sendo creditado a este movimento o alicerce dos belos ideais apresentados na forma dos três manifestos rosacruzes.

Alguns anos mais tarde, porém, em sua autobiografia, Andreae renegaria totalmente não só a versão fatual da saga do místico Cristian Rosenkreutz, como também afirmaria que tudo aquilo concebido como sendo “rosacruz” não passava de um grande ludibrium, propositadamente elaborado e sem nenhuma fundamentação histórica.

Não se sabe ao certo se essa “confissão” de Johann Valentin Andreae fora movida por um repentino senso de honestidade e consciência ou – versão essa preferida pela maioria dos estudantes – tivesse como sua causa a violenta reação e a forte pressão que a Igreja Católica exerceu diante da possibilidade Rosacruz e sobre muitos grupos com tendências reformistas.

Então, conhecidos os três manifestos, sua suposta origem e autor, como também algumas razões do aparecimento público de uma alegada organização secreta, como dito anteriormente, duas tendências principais são estabelecidas:

A primeira aponta para uma decisiva negação de toda a lenda, a demanda e a própria existência do ilustre Irmão Cristian Rosenkreutz, artífice místico da Fraternidade Rosacruz. Para os defensores desse ponto de vista, partindo do princípio que o próprio autor dos três manifestos que dão sustento a toda a saga Rosacruz, faz uma pública retratação, afirmando que tudo não passou de um “trote”, um engodo desnecessário, então tudo aquilo que de um modo ou de outro, direta ou indiretamente, está relacionado ao tema, tudo, absolutamente tudo, é falso, não merecendo, inclusive, sequer comentários.(16)

Muitas vezes, aqueles que adotam a postura acima são enfáticos em afirmar que tudo não passava de uma “farsa”(17) protestante mal articulada.

rosa_luteroDe acordo com estes, até mesmo o nome Rosacruz seria de origem protestante, pois teria vindo das insígnias de Lutero, afinal, ali era encontrada uma “rosa” e uma “cruz”. Também é feita uma associação entre o Brasão da família Andreae com o mote Rosacruz, visto haver ali algumas rosas e também uma cruz… (18)

A segunda hipótese, sob certo ponto de vista histórico bem menos rígida que a outra, agrada muito mais a mente especulativa e romântica, pois vem endossar a idéia de que realmente existiu(19) uma Fraternidade Rosacruz.

Nesse caso, a Fraternidade Rosacruz consistiria de uma ordem oculta às mentes profanas, que trabalhava em total segredo, visando a evolução do ser humano e da sociedade que o nutria. Essa Ordem, cujos Iniciados estariam habilitados a se reconhecer mutuamente sem despertar a atenção do cidadão comum, era invisível e, embora praticamente inacessível ao vulgo, teria a capacidade de reconhecê-lo e o poder de contatá-lo, com o propósito de que essa feliz alma ingressasse em suas fileiras, caso a mesma estivesse em sublime conformidade com os nobres ideais divulgados nos manifestos. Uma vez por ano, os Iniciados desse Colégio Invisível, se encontrariam em um misterioso local,(20) com o objetivo de, através da troca de experiência, aumentar ainda mais o conhecimento de cada um deles.

Porém, mesmo conhecendo essas duas hipóteses, opiniões inteiramente contrárias em conhecimento, metas e sentimento, não seria difícil ventilar, mesmo que também no campo das hipóteses, ainda uma terceira possibilidade para toda a Aventura Rosacruz.(21)

E esta nova suposição, apreciada pela alma que anseia o mistério e bem tolerada pelo espírito crítico, possivelmente trará luz a ambos.(22)

Talvez o problema não seja crer ou não crer na Aventura Rosacruz, mas entendê-la. Talvez a solução para o enigma não esteja meramente no cego aceitar de uma lenda sem fundamentação factual, mas também ele não estará em um frio parecer histórico condenando toda a alegoria.

Porém, podemos tentar absorver seu significado mítico.

Assim, talvez seja de bom grado se pudéssemos entender todo o processo que compreende a alegoria rosacruz: a vida de seu suposto criador e mentor, Frater C.R.; sua longa jornada em busca de um conhecimento superior, com os sábios do Oriente distante; o retorno a sua terra natal, na tentativa de organizar uma augusta Fraternidade que brindaria a humanidade com dias mais gloriosos; etc. Tudo funcionaria como um mito, ou um rito, a ser realizado no íntimo de todo estudante.(23)

Afinal, é difícil supor existir alguém que, uma vez tendo a chance de examinar, mesmo que de relance, a epopéia de heróis fantásticos, não tenha se sentido inclinado a imaginar-se na pele do herói observado.

E quanto a aventura Rosacruz, bem, ela parece continuar…

E que assim seja.

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Notas:

(1) E destes, o mais famoso é, sem sombra de dúvidas, o mito cristão.
(2) Ou seja, os próprios objetivos do evento conhecido pelo nome “iniciação”.
(3) Esta ressalva é de fundamental importância para a compreensão deste ensaio.
(4) Frances A. Yates, O Iluminismo Rosacruz, ed. Cultrix-Pensamento, pag. 10. Esta obra é enfaticamente recomendada a qualquer interessado no assunto.
(5) Essa fantástica versão egípcia para a origem da Rosacruz é bem explorada no pitoresco e pouco confiável Perguntas e Respostas Rosacruzes, H. Spencer Lewis, Ed. Renes, bem como em vários artigos disponíveis na Internet.
(6) G. Oncken, E. Meyer – História del Antiguo Egipto, ed. Impulso – Argentina, 1943, p. 576.
(7) Arthur Franco – A Idade das Luzes, Ed. Wodan, Porto Alegre, 1997, p. 14.
(8) Também conhecido por Fama.
(9) Alguns autores divergem sobre essas datas. Aqui, seguimos Yates, que é a base da maioria dos relatos sobre o tema. Sobre a primeira aparição do Fama, as fontes indicam, inclusive a própria Yates, que ele já estava em circulação em forma de manuscrito desde 1610.
(10) Esta passagem do Fama, que diz “Nosso finado Pai, Fr. C.R., de espírito religioso e elevado, altamente iluminado, alemão, chefe e fundador de nossa fraternidade…”, põe fim na discussão sobre a hipótese egípcia da origem da Fraternidade Rosacruz. (Fama Fraternitatis, Confessio, Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha, 1984)
(11) Durante todo o escrito da Fama, apenas há indicação para as iniciais C.R.; finalmente, apenas na Confessio é que vamos encontrar a referência ao nome de Cristian Rosenkreutz (ou Christian).
(12) Ou Irmão Rosa Cruz, ou ainda Frater Rosea Crucis, ou simplesmente, F.R.C.
(13) Bayard, Jean-Pierre, La Spiritualité de la Rose-Croix, Éditions Dangles, 1990. Cap. I.
(14) Alguns estudiosos não deixam de ser surpreender com algumas notáveis semelhanças entre o Mago inglês John Dee e o fundador da Fraternidade Rosacruz, Cristian Rosenkreutz. No caso de se entender A Rosacruz como uma fantasia, certamente seus criadores não poderiam ter encontrado um modelo mais adequado do que o Mago Isabelino.
(15) Uma ótima exposição dos fatos que envolveram a filosofia oculta durante a Inglaterra da Rainha Isabel é dada por Yates em The Occult Philosophy in the Elizabethan Age , R&Keagan Paul, 1979.
(16) E apesar de existir um bom número de pessoas que negam a existência do Frater R.C., a cada dia que passa, vemos crescer a busca do entendimento desse, digamos, herói mítico… Libertas inaestimabilis res est
(17) O termo “farsa” é um dos significados atribuídos à palavra latina ludibrium. Um outro curioso significado aponta para “peça”, no sentido “peça teatral”.
(18) Mas se formos levar todas aparições de rosas e cruzes como uma inegável indicação de alguma coisa relacionada a rosacruz, certamente perderíamos uma vida inteira apenas localizando tais símbolos… A origem da associação de rosas e cruzes parece estar localizada em um romance de cavalaria do final Idade Média, em meados do século XII, chamado O Romance da Rosa.
(19) E que, segundo os entusiastas do assunto, certamente os adeptos dessa segunda hipótese, a Rosacruz continuaria a existir até hoje, sempre movida pelos mesmos propósitos para os quais fora criada.
(20) Este local recebe, de acordo com as tradições, vários motes, tais como Santo Santuário, Templo do Espírito Santo, Catedral da Alma, Cidade das Pirâmides, etc.
(21) É claro, não é intenção confundir o leitor, apresentando uma outra possibilidade Rosacruz… Mas, talvez, um ponto médio entre o “sim” e o “não”, entre o “é tudo mentira” e o “tudo é verdade”, seja algo interessante de se meditar.
(22) Embora essa suposição também possa suscitar a ira do crédulo e o deboche do crítico, ainda assim arriscamos expô-la.
(23) No início de nossa exposição, mencionamos algo assim: “Os mitos – e mesmo aqueles equivocadamente tomados como fatuais verdades – podem ser entendidos como possuidores de um propósito único, qual seja, através de um drama, expor certos mistérios que promoverão uma alteração no estado mental do observador…”, e esta proposição se encaixa perfeitamente aqui.

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Nota Editorial: Este Artigo foi publicado na Revista Sexto Sentido nº 55, da Mythos Editora. Para esta versão on-line de “A Aventura Rosacruz”, foram mantidos o texto original do artigo bem como as referências bibliográficas das obras consultadas pelo autor.
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Bibliografia:

Andreae, Valentin – Las Bodas Quimicas de Cristian Rosacruz (Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha, 1984)
Fama Fraternitatis, Confessio (Muñoz Moya y Montraveta, Sevilha, 1984)
Arnold, Paul – Histoire des Rose-Croix et Les Origines de la Franc-Maçonnerie (Mercure de France, 1990)
Bayard, Jean-Pierre, La Spiritualité de la Rose-Croix (Éditions Dangles, 1990)
Frances A. Yates, O Iluminismo Rosacruz, (ed. Cultrix-Pensamento)
The Occult Philosophy in the Elizabethan Age (R&Keagan Paul, 1979)
Franco, Arthur – A Idade das Luzes (Ed. Wodan, Porto Alegre, 1997)
G. Oncken, E. Meyer – História del Antiguo Egipto (ed. Impulso – Argentina, 1943)
Hall, Manly P. – The Secret Teaching of All Ages (The Philosophical Research Society, 1975)
Lewis, H. Spencer – Perguntas e Respostas Rosacruzes (Ed. Renes)
McIntosh, Christopher – The Rosycrucians (Thorsons Publishing, 1987)

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scribatus_letra_Constantemente presente na mídia, a boa discussão que contrapõe livros digitais e livros de papel promete esquentar cada vez mais. Recentemente, um caso não muito divulgado veio a inserir no debate um elemento até então inédito: o sumiço de um título eletrônico!

Contudo, antes de explicar o citado elemento, pense na hipotética situação. Você vai a uma livraria, onde é muito bem atendido por uma pessoa simpática e feliz, que de imediato se prontifica a lhe ajudar em tudo. Com seu prestimoso auxílio, você escolhe e compra o título de sua preferência. Ótimo! Chega à casa e começa a usufruir da nova aquisição. Página a página, o livro vai sendo devorado. Envolvendo-se na trama cada vez mais, você vê os personagens crescendo e, do mesmo modo, cresce a expectativa pelos eventos a serem narrados na página seguinte. A trama é ótima – ele é quase o livro da sua vida! Porém, a noite chega e o cansaço bate. Deixando hesitante o livro de lado, em sua cabeceira, finalmente o sono lhe alcança. Na manhã seguinte a decepcionante surpresa: o livro sumiu. Em seu lugar, um bilhete, um pedido de desculpas, aquele título precisou ser recolhido! O golpe de misericórdia: um vale no valor pago na livraria, para ser usado quando da compra de outro título qualquer. O que aconteceu? Simples: a mesma pessoa que lhe atendeu na livraria entrou em sua casa, enquanto você dormia, e levou embora o seu precioso livro.

Difícil de acontecer? Nem tanto.

kindleVoltemos ao elemento inédito. Aconteceu há poucos meses com os usuários do Kindle, um dos mais conhecidos e-books readers (ou e-readers) do mercado, aquele amplamente comercializado pelo Site Amazon.com. Para quem não conhece o procedimento de compra de um e-book, vale a rápida explicação: compra-se um e-reader, compra-se num site qualquer a versão eletrônica de um livro e pronto, o site lhe transmitirá “pelo ar” o livro para seu e-reader. Para cada e-reader comprado, você poderá comprar centenas de e-books. Tudo ficará eternamente armazenado em seu maravilhoso leitor eletrônico.

Ops: eu falei eternamente? Pois bem, como estava dizendo, aconteceu há poucos meses com os usuários do Kindle. De um segundo para o outros, milhares de usuários tiveram simplesmente apagados de seus e-readers o muitíssimo conhecido título de George Orwell, A Revolução dos Bichos. Parece que por “problemas de copyrights”, a versão eletrônica deste título foi não somente impedida de ser comercializada, mas todos os “exemplares eletrônicos” vendidos tiveram que ser confiscados dos clientes, ou seja, foram apagados. Como eles foram apagados? Muito simples: a Amazon.com teclou “Delete” em seus servidores e pronto, o e-book sumiu!!! Em seu lugar, um crédito para que outro e-book fosse comprado. Frustante!

Quem quiser ler a notícia com mais detalhes, consulte aqui o New York Times.

O sumiço do e-book lança uma série de questões. Entre elas, a pessoa que compra um e-book é de fato seu dono? E quanto a privacidade do leitor, ela existe? Qual a possibilidade de ingerências dos vendedores nos e-readers, ou, dito de modo mais claro, eles poderão colocar e tirar de lá o que quiserem? E ainda mais: imagine-se lendo um livro do autor X e de repente surgir uma mensagem no meio da telinha bradando “se você gosta do autor X certamente deverá gostar de Y – veja só esse lançamento!”. Essas e tantas outras questões suscitadas pelo caso apimentarão o debate livro digital versus livro de papel.

O VOLP aqui ao lado sussurra: oba! Ponto para o livro de papel…

Obs.: Veja aqui uma pequena lista de e-book readers e aqui o Site do Kindle.

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scribatus_letra_Ontem conversava com um amigo que se vangloriava sobre a liberdade que ele possuía, visto pertencer a uma espécie de grupo “iniciático” que fazia da bandeira liberdade seu maior mote. Ocorre que meu amigo ainda se encontra naquela fase da doce-ilusão, onde as nódoas institucional, por mais escandalosa que sejam, simplesmente não são vistas pelo neófito. Obnubilação: esse é o desconcertante efeito que grupos sectários exercem, até mesmo sobre as mentes mais esclarecidas. Nesse caso específico, sei que não é nada que o tempo não cure. Por isso, de certo que não vou questioná-lo.

 

assisTodavia, o papo sobre a liberdade me lançou de volta a Machado de Assis, mais precisamente ao seu maravilhoso Memórias Póstumas de Brás Cubas. Costumo citá-lo como um dos melhores livros que li, como um dos que prefiro e que há muito conquistou lugar cativo em minha cabeceira. Para o momento, destaco-lhe o pequeno trecho abaixo. Embora ínfima se comparada com toda a obra, vejam a maravilha desta pertinente e eterna citação. Quem sabe, vocês também poderão adotar o discurso de Assis, quando pensarem em Liberdade:

Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que LIBERDADE. Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele não se estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

Tenho certeza que muitos encontrarão seus pensamentos nestas breves e excepcionalmente bem traçadas linhas.

De todo modo, penso que seja algo útil meditar nessas palavras de Machado de Assis pois, para todos nós que vivemos Iniciação & Liberdade – as quais são (ou deveriam ser) compostas de pequenas mortes e nascimentos – por vezes é comum nos esquecermos de nossos mais puros anseios, para nos cobrirmos com a capa da ilusão e da ostentação de conhecimentos, graus, honrarias, instituições e tudo mais.

Assim, se pensarmos que, um dia, cedo ou tarde, tudo isso acaba, creio que muito aprenderemos ainda em vida!

Abraços.

Carlos Raposo

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. Buscando uma sombra…

scribatus_letra_Acontece comigo de, esporadicamente, passear pela grande rede a fim de encontrar algum material útil às pesquisas que estou fazendo. Os temas são os mais variados, indo desde esoterismos, passando por filosofias, chegando até as ciências. Certamente, o grande benefício que este complexo chamado Internet traz é fazer com que as informações estejam ao alcance de qualquer um. Uma verdadeira democracia em favor da disseminação do conhecimento.

jorge-luis-borgesComo próprio da democracia, da mesma forma que o espaço virtual contém material precioso, não faltam sítios recheados de puro lixo. De modo que cabe a cada um de nós a tarefa, nem sempre fácil, de ser um filtro, separando apenas aquilo que presta.

Estava eu, então, pesquisando a palavra sombra e me deparei com tanta bobagem (ao pior estilo esotérico-que-pensa-que-é-psicológico) que, por um momento, pensei em desistir.

Felizmente, a boa sorte, companheira de todos os momentos, fez com que eu encontrasse refúgio em meio às palavras platinas de Borges.

Deixo-as então com vocês.

Abraços.

Carlos Raposo

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Elogio da Sombra
de Jorge Luis Borges
(Tradução de Mariana T. Ferreira)

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal está morto ou quase morto.
Ficam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda as trevas.
Buenos Aires,
que antes se desgarrava em arrebóis
desde a planura incessante,
voltou a ser a Recoleta, o Retiro,
as tortuosas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sur.

Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar;
o tempo tem sido meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece com a eternidade.

Meus amigos não têm cara,
as mulheres são o que foram já há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isso deveria me atemorizar,
mas é uma doçura, um regresso.

Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que sigo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte,
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites, entre-sonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o amor compartilhado, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las.
Chego ao meu centro,
a minha álgebra e minha clave,
a meu espelho.
Logo saberei quem sou”.

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