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letra_No Twitter e em outras Redes Sociais, notei que – de súbito e por alguns ralos instantes – muita gente havia transformado a hastag #Clarice em algo dos mais citados. Que ótimo, pensei, lembrando-me imediatamente da notável e deslumbrante escritora Clarice Lispector. Pavoroso engano de minha parte. Logo me alertaram para a crudelíssima realidade da coisa. Era uma Clarice, de fato, mas a anos-luz de ser a Clarice. Uma pena.

Sim, uma pena. Tratava-se apenas dum clipe de nudez explícita e de palavreado chulo. Nada demais. Um troço corriqueiro e tacanho. Explicitamente banal. Perfeitamente previsível e tolo. Contudo, totalmente adequável ao tipo de sociedade com a qual – queiramos ou não – somos obrigados a conviver.

Confesso que, no momento, até pensei ser gentil e escrever algo de positivo e legal sobre esta gente. Sobre a nossa sociedade, por mais canhestra que ela seja. Desculpe-me, mas não obtive logro. Ocorre que, para ser gentil, tentei me refugiar naquele Profeta, o Gentileza. Sim, esse mesmo. Aquele que certa feita gravou “gentileza gera gentileza”. Pois é, eu quis ser gentil, mas me apanhei num trocadilho. Assim, data venia, ou melhor, meu querido Gentileza, data maxima venia, digo apenas: gente lesa gera gente lesa.

Bye.

lamento

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scritabus_letra_Nesta última 6ª-feira precisei percorrer alguns bairros cariocas. Fora um para-brisa estilhaçado que me o obrigou. Necessitava trocá-lo. Custou-me a tarde inteira para consertá-lo. Tudo bem. Aproveitei o meu pequeno périplo para observar os transeuntes. Mais especificamente, seus trajes. Queria encontrar camisas vermelhas.

Ocorre o seguinte. Na última quinta-feira, o ex-Presidente Lula fez uso da palavra. Certo é que alguns continuam a admirá-lo, embora bem menos o tenham aplaudido. Os que lhe ouviram o saberão: nosso ex-Presidente clamou pelo uso da vestimenta rubra. Ele disse algo como “a militância tem que andar de camisa vermelha”. Assim, lá estava eu, na tarde do dia seguinte, a observar a incidência da coisa.

Surpreendi-me com o que encontrei. Melhor dizendo, com o que não encontrei. Não vi viva alma enrubescida pela roupa. O apelo de Lula não funcionou. Não quero afirmar nada ofensivo, logo digo. Contudo, conclui ter sido o rubor moral de boa parte daquela militância o responsável pelo sumiço das camisas vermelhas.

Registro seja feito, encontrei alguém trajando uma camisa vermelha. Era um senhor, de certa idade. Por óbvio, tratava-se dalgum sujeito de extrema resignação. Não consegui evitar encará-lo. Ao perceber meu espanto, ele sorriu. Depois, pegou o escudo da camisa e o beijou. Entendi perfeitamente o recado. Era como se ele me dissesse: sim, é isso. Sou carioca e sou América, sim senhor. Com muito orgulho, com muito amor.

Então, apenas direi: salve, salve, manto americano!

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letra_Este caminheiro que aí se apresenta possui uma missão. Ela é árdua, difícil. Possivelmente, suas consequências, uma vez não satisfeita a urgente demanda, podem ser cruéis. Empreendido numa busca, ele almeja algo encontrar. O quê? Deixo-vos algumas opções, sendo uma apenas a correta:

A) Ele quer encontrar a verdade, uma nova luz à humanidade;
B) Anseia, tal qual Diógenes, o Cínico, achar o humano ideal, assim como definido por Platão;
C) Aceso o candeeiro, fazer as vias do Eremita, a inspirar a criatura humana;
D) Quer apenas, desesperadamente, encontrar a tarraxinha do brinquinho de sua filhinha… e haja diminutivos…

lanterna

. Golpe

scribatus_letra_Então alguém é servidor público. Dada à crise ou graças a outros percalços, subitamente, a pessoa se vê em apuros financeiros. A respeito de tal, o Estado brasileiro, demonstrando toda sua generosidade, tem a solução para seu problema: um belo serviço de gestão de crédito consignado, destinado *apenas* para funcionários públicos. Tudo ótimo. Ótimo? Talvez não.

Em pano rápido, descobriu-se que a empresa contratada pelo próprio governo brasileiro para operar tecnicamente o serviço cobrava mais do que deveria pelo crédito. Como? Sim, isso mesmo: cobrava mais do que deveria. Mas, por quê? Resposta: arrecadamento de propina. Cerca de 70% deste “faturamento extra” se destinava ao então partido governista e a alguns políticos. Segundo a Polícia Federal, de 2009 a 2015 aproximadamente R$ 100 milhões foram tirados indevidamente daqueles que recorreram à generosidade estatal.

Ainda conforme a PF, dezenas de milhares de funcionários públicos foram roubados pelo esquema. Noutras palavras, sem o saberem, estes funcionários financiaram parte da engrenagem da corrupção brasileira. O que dizer a respeito?

Ultimamente, a palavra “golpe” tem sido usada com certa frequência. Pois é, tem sido usada, um tanto que indevidamente. Entretanto, e aqui quase todos concordarão, isto aí foi um autêntico golpe dado nos servidores públicos.

Um golpe de doer.

Golpe

. A vassourinha

letra_Já faz alguns meses, Alice recebeu de presente da avó paterna uma vassoura pequena. O instrumento é adequado à altura duma criança de quatro anos. A ideia é simples, até boa. Ocorre que crianças – mães e pais o saberão – têm fascinação por vassouras. Não podem ver alguém usá-la que logo quererão ajudar na varrição. O resultado desta “ajuda” nem sempre é bom: janelas quebradas, pessoas atingidas, objetos derrubados, etc. O detalhe macabro é que a sujeira, objeto primeiro de qualquer varrida, quando um destes infantes dirige a vassoura, permanecerá lá no chão, incólume. Então, de posse da vassoura mirim, as crianças – milagre dos milagres – imediatamente esquecem a vassoura adulta. Como dito, a ideia é simples, até boa. Todavia…

Enfim, fato é que minha filha recebeu de presente uma destas vassourinhas. Já faz algum tempo. Naquele momento, o artifício funcionou perfeitamente, como esperado. Logo, Alice passou a ignorar a vassoura adulta. De início, a vassourinha foi usada como vassoura, freneticamente a varrer ou, melhor dizendo, espalhar qualquer sujeirinha do chão.

Com o passar do tempo, porém, a brincadeira da varrida foi deixando de ter graça para Alice. Na verdade, todas as crianças aprendem muito rápido sobre o quão chato e detestável é varrer o chão. Porém, a imaginação infantil! Ah, a imaginação infantil, como é pródiga! Logo, a vassourinha assumiu o viés de um cavalinho de pau. Pronto, lá vai Alice em disparada pela casa, montando seu novo brinquedo, o cavalinho. Depois, claro, o cavalinho perderia toda a graça… sem problemas para ela que passou a ver ali uma guitarra de rock’n roll… depois o objeto se transformaria num microfone… etc.

Sim, mais acima foi escrito um “todavia”. Ei-lo aqui, finalmente. Acontece que todas aquelas brincadeiras são bem lúdicas e interessantes. Todavia, eis que hoje Alice cismou de ver na vassourinha uma espada. Uma espada! Com a desenvoltura de fazer inveja a monges Shaolins , Alice rodava a “espada”, ameaçando suas bonecas, seus bonecos e, indiretamente, tudo aquilo que estava perto. Inclusive as humanas criaturas. Por mais que a alertássemos, nem Juliana nem eu, conseguimos fazê-la entender o perigo daquela “arma”. Resultado, decidimos tirar a vassourinha, ou melhor, a espada, da Alice. Por sua vez, ela, percebendo nossa intenção, saiu em nova disparada pela casa adentro. Instantes depois, Alice voltou sem a “espada”, encontrou a mãe e lhe disse, muito convicta:

– Mãe: escondi a minha vassoura embaixo da cama da vovó. Assim você não vai descobrir onde ela está!

Bem, por óbvio, até agora “não sabemos” onde está escondida a tal da vassourinha…

E segue a vida!

vassoura[1]

scribatus_letra_Aaventura de fazer com que uma criança durma é algo que somente pais e mães dedicados saberiam descrever com moderada precisão. Rodeamos, iludimos, oramos, contamos histórias e estórias, encenamos. Enfim, tudo a serviço de nosso egoico e mais honesto desejo de ver nossos rebentos partirem para o reino de Hipnos, o não tão famoso deus do sono, pai do muito mais que famoso Morfeus, deus dos sonhos…

Enfim, pondo jocosamente a literatura grega arcaica de lado, esforçava-me para dar cabo do sono de Alice. Ela, como sempre, irrequieta e traquina, resistia a todos os meus artifícios. Ria e rolava na cama, como se debochasse de meus vãos esforços e preces para que finalmente ela dormisse. Depois dum tempo que me pareceu enorme, quase infinito, finalmente suas pequenas pálpebras pareceram subitamente pesadas. Foram caindo, caindo, caindo, até que seus olhinhos fecharam. “Venci de novo”, foi meu apressado pensamento.

Instantes depois, aqueles olhinhos marotos se abrem. Um leve sorriso cínico é feito por ela. Então, Alice se senta na cama e começa, a plenos pulmões a cantar:

– Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! Viva vivaaaaaaa!

Assim, novamente começam os rodeios, as ilusões, as orações, as histórias e as estórias, as encenações à Alice. Isso tudo até que, finamente, Hipnos, aquele não tão famoso deus do sono, tome-a a seus cuidados.

De todo modo, mesmo cansado, quase destruído, não tenho como esconder minha satisfação. Afinal, a julgar pela canção, de fato devo esta fazendo alguma coisa certa…

Imprimatur_sociedade_alternativa

scribatus_letra_Estávamos num estúdio. Tatuar era o ofício dos profissionais de lá. Todos muito competentes. Alice observava a mãe ser tatuada. Intrigada, fazia interrogações e exclamações sem fim. Não dói, né? Que lindo! Já acabou? Qual cor? Que legal, mãe! Tá bonita! E assim, enquanto o tempo passava, a tatuagem tomava forma. Por assim dizer, ela ia brotando, brotando, brotando…

Aconteceu de haver ali um outro sendo tatuado. Tratava-se dum rapaz. Escolhera um par de asas. Asas de anjo, por certo. Difícil de se inferir, isto nem de longe era. Rapaz de bom gosto. Não seria sua primeira tatuagem. Contudo, de tamanho médio, aquelas asas seriam especiais. Uma espécie de destaque. A bela tattoo passaria a lhe habitar a parte posterior do pescoço. De tamanho médio, ia da nunca até o início das costas. Também lhe alcançava as laterais, como se acarinhasse parcialmente o pescoço do jovem. Enquanto a imagem era feita, o rapaz discretamente se contorcia. Franzia bastante a testa. A dor era evidente. Resignado, entretanto, ele ia resistindo. E resistindo ficou, enquanto a tatuagem ia, por assim dizer, brotando, brotando, brotando em sua pele.

Alice notou o rapaz. Viu-lhe as asas. Olhou-as, observou-as. Olhou-as de novo. Por sua vez, os tatuadores seguiam em seus trabalhos. Como já afirmado, todos muito competentes. Compenetrados, concentrados e bem atentos. Por força do ofício, circunspectos. E Alice continuava ali. Irrequieta, via aquelas tatuagens nascerem. De repente, seus olhinhos brilharam. Conheço-a bem: ela deduzira algo. Então, Alice olhou para a mãe. Com plenos pulmões, disse-lhe, apontando aquelas asas:

– É uma galinha, mãe!

Breve momento de tensão. O rapaz franziu ainda mais a testa. Já os tatuadores – dizendo novamente, profissionais experientes -, começaram a rir. Por fim, todos riram. Ufa, pensei. Não foi assim tão grave… Pouco depois, as asas ficaram prontas. Ficaram muito bonitas. Trabalho bem feito. O rapaz, ao sair, ainda demonstrava desconforto. Fora do recinto, esticou-se. Franziu mais uma vez a fronte. Percebi que, de soslaio, ele olhou para dentro da loja. Balouçou a cabeça, pôs a mão na nova tattoo e foi embora.

Agora, quedo-me em dúvida. Não sei interpretar esse gesto. Talvez o balouço seja mesmo mera consequência da dor sentida por ele… ou – quem o saberá? –, seja efeito dalgum titubeio a respeito da escolha daquela bela imagem.

wings_tattoo