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. Golpe

scribatus_letra_Então alguém é servidor público. Dada à crise ou graças a outros percalços, subitamente, a pessoa se vê em apuros financeiros. A respeito de tal, o Estado brasileiro, demonstrando toda sua generosidade, tem a solução para seu problema: um belo serviço de gestão de crédito consignado, destinado *apenas* para funcionários públicos. Tudo ótimo. Ótimo? Talvez não.

Em pano rápido, descobriu-se que a empresa contratada pelo próprio governo brasileiro para operar tecnicamente o serviço cobrava mais do que deveria pelo crédito. Como? Sim, isso mesmo: cobrava mais do que deveria. Mas, por quê? Resposta: arrecadamento de propina. Cerca de 70% deste “faturamento extra” se destinava ao então partido governista e a alguns políticos. Segundo a Polícia Federal, de 2009 a 2015 aproximadamente R$ 100 milhões foram tirados indevidamente daqueles que recorreram à generosidade estatal.

Ainda conforme a PF, dezenas de milhares de funcionários públicos foram roubados pelo esquema. Noutras palavras, sem o saberem, estes funcionários financiaram parte da engrenagem da corrupção brasileira. O que dizer a respeito?

Ultimamente, a palavra “golpe” tem sido usada com certa frequência. Pois é, tem sido usada, um tanto que indevidamente. Entretanto, e aqui quase todos concordarão, isto aí foi um autêntico golpe dado nos servidores públicos.

Um golpe de doer.

Golpe

. A vassourinha

letra_Já faz alguns meses, Alice recebeu de presente da avó paterna uma vassoura pequena. O instrumento é adequado à altura duma criança de quatro anos. A ideia é simples, até boa. Ocorre que crianças – mães e pais o saberão – têm fascinação por vassouras. Não podem ver alguém usá-la que logo quererão ajudar na varrição. O resultado desta “ajuda” nem sempre é bom: janelas quebradas, pessoas atingidas, objetos derrubados, etc. O detalhe macabro é que a sujeira, objeto primeiro de qualquer varrida, quando um destes infantes dirige a vassoura, permanecerá lá no chão, incólume. Então, de posse da vassoura mirim, as crianças – milagre dos milagres – imediatamente esquecem a vassoura adulta. Como dito, a ideia é simples, até boa. Todavia…

Enfim, fato é que minha filha recebeu de presente uma destas vassourinhas. Já faz algum tempo. Naquele momento, o artifício funcionou perfeitamente, como esperado. Logo, Alice passou a ignorar a vassoura adulta. De início, a vassourinha foi usada como vassoura, freneticamente a varrer ou, melhor dizendo, espalhar qualquer sujeirinha do chão.

Com o passar do tempo, porém, a brincadeira da varrida foi deixando de ter graça para Alice. Na verdade, todas as crianças aprendem muito rápido sobre o quão chato e detestável é varrer o chão. Porém, a imaginação infantil! Ah, a imaginação infantil, como é pródiga! Logo, a vassourinha assumiu o viés de um cavalinho de pau. Pronto, lá vai Alice em disparada pela casa, montando seu novo brinquedo, o cavalinho. Depois, claro, o cavalinho perderia toda a graça… sem problemas para ela que passou a ver ali uma guitarra de rock’n roll… depois o objeto se transformaria num microfone… etc.

Sim, mais acima foi escrito um “todavia”. Ei-lo aqui, finalmente. Acontece que todas aquelas brincadeiras são bem lúdicas e interessantes. Todavia, eis que hoje Alice cismou de ver na vassourinha uma espada. Uma espada! Com a desenvoltura de fazer inveja a monges Shaolins , Alice rodava a “espada”, ameaçando suas bonecas, seus bonecos e, indiretamente, tudo aquilo que estava perto. Inclusive as humanas criaturas. Por mais que a alertássemos, nem Juliana nem eu, conseguimos fazê-la entender o perigo daquela “arma”. Resultado, decidimos tirar a vassourinha, ou melhor, a espada, da Alice. Por sua vez, ela, percebendo nossa intenção, saiu em nova disparada pela casa adentro. Instantes depois, Alice voltou sem a “espada”, encontrou a mãe e lhe disse, muito convicta:

– Mãe: escondi a minha vassoura embaixo da cama da vovó. Assim você não vai descobrir onde ela está!

Bem, por óbvio, até agora “não sabemos” onde está escondida a tal da vassourinha…

E segue a vida!

vassoura[1]

scribatus_letra_Aaventura de fazer com que uma criança durma é algo que somente pais e mães dedicados saberiam descrever com moderada precisão. Rodeamos, iludimos, oramos, contamos histórias e estórias, encenamos. Enfim, tudo a serviço de nosso egoico e mais honesto desejo de ver nossos rebentos partirem para o reino de Hipnos, o não tão famoso deus do sono, pai do muito mais que famoso Morfeus, deus dos sonhos…

Enfim, pondo jocosamente a literatura grega arcaica de lado, esforçava-me para dar cabo do sono de Alice. Ela, como sempre, irrequieta e traquina, resistia a todos os meus artifícios. Ria e rolava na cama, como se debochasse de meus vãos esforços e preces para que finalmente ela dormisse. Depois dum tempo que me pareceu enorme, quase infinito, finalmente suas pequenas pálpebras pareceram subitamente pesadas. Foram caindo, caindo, caindo, até que seus olhinhos fecharam. “Venci de novo”, foi meu apressado pensamento.

Instantes depois, aqueles olhinhos marotos se abrem. Um leve sorriso cínico é feito por ela. Então, Alice se senta na cama e começa, a plenos pulmões a cantar:

– Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! Viva vivaaaaaaa!

Assim, novamente começam os rodeios, as ilusões, as orações, as histórias e as estórias, as encenações à Alice. Isso tudo até que, finamente, Hipnos, aquele não tão famoso deus do sono, tome-a a seus cuidados.

De todo modo, mesmo cansado, quase destruído, não tenho como esconder minha satisfação. Afinal, a julgar pela canção, de fato devo esta fazendo alguma coisa certa…

Imprimatur_sociedade_alternativa

scribatus_letra_Estávamos num estúdio. Tatuar era o ofício dos profissionais de lá. Todos muito competentes. Alice observava a mãe ser tatuada. Intrigada, fazia interrogações e exclamações sem fim. Não dói, né? Que lindo! Já acabou? Qual cor? Que legal, mãe! Tá bonita! E assim, enquanto o tempo passava, a tatuagem tomava forma. Por assim dizer, ela ia brotando, brotando, brotando…

Aconteceu de haver ali um outro sendo tatuado. Tratava-se dum rapaz. Escolhera um par de asas. Asas de anjo, por certo. Difícil de se inferir, isto nem de longe era. Rapaz de bom gosto. Não seria sua primeira tatuagem. Contudo, de tamanho médio, aquelas asas seriam especiais. Uma espécie de destaque. A bela tattoo passaria a lhe habitar a parte posterior do pescoço. De tamanho médio, ia da nunca até o início das costas. Também lhe alcançava as laterais, como se acarinhasse parcialmente o pescoço do jovem. Enquanto a imagem era feita, o rapaz discretamente se contorcia. Franzia bastante a testa. A dor era evidente. Resignado, entretanto, ele ia resistindo. E resistindo ficou, enquanto a tatuagem ia, por assim dizer, brotando, brotando, brotando em sua pele.

Alice notou o rapaz. Viu-lhe as asas. Olhou-as, observou-as. Olhou-as de novo. Por sua vez, os tatuadores seguiam em seus trabalhos. Como já afirmado, todos muito competentes. Compenetrados, concentrados e bem atentos. Por força do ofício, circunspectos. E Alice continuava ali. Irrequieta, via aquelas tatuagens nascerem. De repente, seus olhinhos brilharam. Conheço-a bem: ela deduzira algo. Então, Alice olhou para a mãe. Com plenos pulmões, disse-lhe, apontando aquelas asas:

– É uma galinha, mãe!

Breve momento de tensão. O rapaz franziu ainda mais a testa. Já os tatuadores – dizendo novamente, profissionais experientes -, começaram a rir. Por fim, todos riram. Ufa, pensei. Não foi assim tão grave… Pouco depois, as asas ficaram prontas. Ficaram muito bonitas. Trabalho bem feito. O rapaz, ao sair, ainda demonstrava desconforto. Fora do recinto, esticou-se. Franziu mais uma vez a fronte. Percebi que, de soslaio, ele olhou para dentro da loja. Balouçou a cabeça, pôs a mão na nova tattoo e foi embora.

Agora, quedo-me em dúvida. Não sei interpretar esse gesto. Talvez o balouço seja mesmo mera consequência da dor sentida por ele… ou – quem o saberá? –, seja efeito dalgum titubeio a respeito da escolha daquela bela imagem.

wings_tattoo

scribatus_letra_Hecomendaram-me uma bateria desses exames de rotina. Tomografia computadorizada da coluna era a bola da vez. O laboratório, ótimo. Tinha até estacionamento próprio. Fui de carro.

Já deitado, lá no equipamento, esperava a coisa ser ligada. Duas enfermeirinhas bem franzinas entram na sala onde eu estava. Uma delas alegremente me avisa: vamos fazer sem aplicar o “contraste”, senhor. Disse-lhe: ótimo!

Logo em seguida, com as moças fora da sala, a geringonça tecnológica foi acionada. Eu ali, imóvel, enquanto a coisa me escaneava. Paciência, pensei, deve acabar logo. Cerca de cinco minutos depois achei ter escutado um “droga” vindo bem de longe. Logo o saberia, a voz era do técnico que operava a máquina. Imediatamente depois o equipamento parou. Por certo algo deu errado, concluí. As enfermeirinhas novamente entram na sala, estavam um pouco apreensivas. Infelizmente teremos que lhe aplicar o “contraste” e repetir o exame, senhor; falaram-me quase em uníssono. Tudo bem, disse-lhes. Contudo, a curiosidade, ah, a curiosidade…

– Enfermeiras, por gentileza, quanto de contraste vocês irão me aplicar?
– O padrão senhor, 50 ml. Disse-me uma.
– O que? Só 50? Olha só o tamanho dele! Vamos aplicar 100. Disse a outra à primeira, cheia de convicção.

Então, de longe, novamente, escutei aquela mesma voz do “droga”, agora a berrar: 130!! As moças se entreolharam. Pareceram-me de olhos arregalados. Assim sendo, após um brevíssimo interrogatório para me avaliarem, começaram a me injetar o tal contraste, dizendo: o senhor sentirá um forte aquecimento nas axilas e na pelve, sentirá um gosto metálico na boca, um pouco de mal-estar, talvez fique tonto e enjoado, mas é tudo normal.

Droga injetada, logo a geringonça foi novamente acionada. Em alguns minutos, concluíram o exame. O que eu senti? Bem, senti nada. Nada? Perguntou-me a preocupada enfermeira, enquanto retirava a agulha de meu braço. Não, não senti nada e ainda sairei daqui dirigindo. Muito obrigado.

Pois é. Desta pequena experiência cheguei à conclusão: se antes eu desconfiava, agora tenho certeza. Preciso mesmo emagrecer.

tomografo

scribatus_letra_Estava há pouco numa agência própria dos Correios quando, para o pânico geral, o sistema caiu. Seus funcionários, pacientemente, tentavam atender os enfurecidos clientes. Todo o procedimento adotado era demoradamente manual. Quando chegou a minha vez, o rapazinho do guichê, assustado, trêmulo e meio serelepe me disse:

– Senhor, por Jesus, me desculpe, mas não poderei atendê-lo.
– Por que não?
– E que os “impressos” são difíceis de calcular e acho que eu posso errar os centavinhos, para mais ou para menos e se eu errar vai tudo voltar.

Enfim, aquela alma timorata não sabia calcular os centavinhos. Olhei para um lado, depois para outro. Cocei a nuca e lhe disse:

– Ok.

paciencia_fracaMinha paciência, seja para mais ou seja para menos, anda muito próxima a zero. Assim, atualmente acho melhor não discutir, não argumentar, não chamar o gerente e nem tomar quaisquer outras atitudes. Preferi apenas, com meus pacotes não postados, voltar a casa. Não é a comezinha falta de eficiência daquele funcionário dos Correios – incapaz de calcular “os centavinhos” – que irá estragar meu dia.

Enfim, o negócio é dar algumas risadas e fazer bom uso do mote “vida que segue”.

Boa tarde a todos!

. Questões complexas

scribatus_letra_Estava dando banho em Alice, enquanto ela brincava com a boneca Ariel. Aos profanos, segue a necessária explicação: Ariel é uma sereia.

Ela manuseava a boneca sem parcimônia. Ensaboava e tirava o sabão dela debaixo do chuveiro. Passava-lhe xampu e se divertia enquanto a espuma cobria aquele emaranhado vermelho dos cabelos de sua pequena Ariel. Por óbvio, houve um momento bem sério. Foi quando ela olhou firme para os olhinhos da sereia e disse: “cuidado com o sabão no olho, tá bom? Dói muito”. Recomendação dada, o banho seguia.

arielDe repente, Alice começou a virar a boneca de cabeça para baixo, como a que procurar algo. Depois, olhou-me. Pronto, pensei, conheço estes ares – lá vem pergunta difícil.

– Papai.
– Sim querida.
– Sereia tem umbigo?

Por Ligeia, pensei novamente, e agora? Na dúvida, achei melhor dizer:

– Algumas sim, outras não.
– Ah, bom. Ariel não tem. Agora o outro xampu, papai.
– Ok. Então lhe dei o “outro xampu”, ou seja, o condicionador.

Da pergunta feita, deduzi ter eu duas necessidades prementes. Primeira, preciso voltar meus olhos novamente à literatura grega arcaica. Depois, algo bem mais urgente, preciso me preparar para certas questões bem mais complexas, que logo habitarão o universo de minha filha.