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Posts Tagged ‘Paulo Freire’

enho ouvido alguns críticos (literários, políticos e sociais) citarem o analfabetismo funcional como algo que atualmente marca boa parte dos brasileiros. Segundo estes críticos, após décadas de uma estratégia pedagógica rotundamente equivocada, o resultado é que grande parte da população de nosso país se tornou simplesmente incapaz de entender um texto, por mais simples que seja.

Dito isto, num grupo que participo, alguém anunciou algo à venda, falando basicamente o seguinte: “vendo rack, R$ 150,00; não entrego, favor retirar no bairro São Cristóvão”. Pois bem, imediatamente, vários interessados começaram a falar. A grande maioria deles fazia perguntas como:

– Quanto custa?
– Onde vc mora?
– Vc entrega?

Enfim, este é somente um pequeno exemplo. Contudo, sei que afirmá-lo é triste, mas aqueles críticos têm razão.

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ntrei no elevador e por mero lapso não lhe apertei o térreo imediatamente. A porta se fecha e o troço resolve subir. Raios, pensei, até que ele chegou ao 12º andar. Alguém abre a porta e entra. Bom dia, a pessoa me diz. Respondo, bom dia. Começamos a descer. Então, a criatura ali desanda a me falar. Resumidamente, foi algo como:

– Pois é. Veja só esta greve. Dos caminhões, sabe? Um absurdo. Mas eles têm direito. Fazer o que? As pessoas estão meio doidas, você não acha? São as redes sociais. É cada coisa. E as fake News? A culpa é dos militares. Deviam agir. Mas acho melhor não. No meu tempo a coisa ficou preta da silva. A gente corria e apanhava dos milicos. Mas a época nem se compara com a de hoje. Hoje é muito pior. Mas naquela época também era ruim. Mas era melhor. Acho que eles deviam agir, ou não? Nem sei mais. Sei que depois veio o Sarney e a coisa ficou ainda pior. Votei no Lula, mas ele perdeu. Piorou tudo. Votei no FHC e ele ganhou. Legal. Depois votei no Lula de novo e ele ganhou. As coisas melhoraram, mas a que custo né? Agora todo mundo sabe. Cretino. Aí veio a anta. Nem quero falar nada. Nem me lembro se votei nela. Paulo Freire tem razão. Como é mesmo que ele falava? Ah, deixa prá lá. Tenho formação em pedagogia. E agora tem a copa. Será que o Brasil vencerá? Ih, tenho que procurar um posto. Estou sem gasolina. Será que encontro um? Um absurdo esta greve. A dos caminhões. Veja só a que ponto chegamos. As redes sociais são um problema. As fake news…

Chegamos ao térreo. Doze longos andares, mais o play e as garagens. Viagem quase interminável. Novamente, porta do elevador aberta e um mútuo bom dia. Segui com minha vida. Aquela criatura seguiu com a dela. Benedicat te Omnipotens!

Concluindo, concordo: as pessoas estão mesmo meio doidas.

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gotica_h_negraoje me lembrei de um professor que tive. Foi lá em pleno “científico”, atual ensino médio, quando fiquei quase um ano sob sua tutela. A recordação foi provocada por um pequeno blá blá blá que casualmente li aqui no facebook. Nele, alguém que me pareceu ser uma “educadora” fazia comentários lisonjeiros a quem dizia ser “o melhor educador do mundo”.

Achei interessante a coisa, mas fiquei meio desconfiado, pois o polarizado ponto de vista da moça apontava sempre para o mesmo lugar. Em suma, ela surrava o que – certamente inspirada pelo melhor do mundo – chamava de “ensino de bancada”. Era um discurso que desmoralizava formas tradicionais de ensino, em favor de um conhecimento mais, na palavra dela, socializado. Algo do tipo, cadeiras arrumadas em círculo, eliminação do posto fixo do professor e demais sequelas de mesmo estilo.

Foi neste momento que aquela recordação brotou de minha memória. Mais especificamente quando aquele professor entrou em sala de aula. Todos nós, alunos terceiranistas, movidos por aquele inesgotável entusiasmo púbere, tocávamos a maior zona na sala e não percebemos a entrada do velho mestre. Entretanto, aos pouco, demo-nos conta da presença desta criatura, estranha e impassível, lá no recinto. Levemente constrangidos, mas sem perder o ar de deboche, fomos nos acomodando em nossos lugares. De repente, um pesado silêncio tomou conta da sala. Então ele, bem tranquilamente, ajeitou seus óculos e nos disse algo como:

Professor_2– Bom dia turma. Já que vocês estão em respeitoso silêncio, posso então me apresentar. Meu nome é Luís, Luís Lessa, e estou aqui com uma tarefa, ensinar-lhes história. Não é uma tarefa muito fácil, mas pode ser bastante prazerosa. Assim, gostaria de fazer um trato com vocês, um acordo bem simples. É possível? Ótimo. Pois bem, o trato é o seguinte: eu falo, vocês escutam e estudam.

Imediatamente depois começou a aula. Roma antiga. A turma, meio perplexa, escutava o mestre. Cerca de trinta minutos depois, ele soltou um leve “escutar não os eximem de perguntar”. Logo, uma pergunta ou outra ia surgindo e a aula continuava fluindo como se fosse mágica.

Na verdade, hoje sei, era de fato mágica: a magia de aprender com quem realmente sabe e que não esconde qualquer vício com a suposta virtuosidade de didatismos hodiernos. Passamos o terceiro ano todo deste modo.

Este Mestre foi um dos melhores que tive.

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